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A libertação da alma
e do corpo se
opera gradualmente e com uma lentidão variável, segundo
os indivíduos e as circunstâncias da morte. Os laços que unem
a alma ao corpo não se rompem senão pouco a pouco, e
tanto menos rapidamente quanto a vida foi mais
material e mais sensual. (O Livro dos Espíritos,
nº 155)
No momento da morte, primeiro tudo é confuso;
a alma precisa de algum tempo para se reconhecer,
porque está meio atordoada, e no estado de um homem
saindo de sono profundo e que procura inteirar-se da
sua situação. A lucidez das idéias e a memória do passado lhe retornam
à medida que se desfaz a influência da matéria da qual acaba de
se libertar, e que se dissipa a espécie de bruma que obscurece seus
pensamentos.
A duração da perturbação que se segue à
morte é muito variável; pode ser de
algumas horas somente, como de vários dias, de vários meses e mesmo
de vários anos. Ela é menos longa naqueles que, durante a vida, se
identificaram com seu estado futuro, porque compreendem imediatamente
sua situação; é tanto mais longa quanto o homem tenha vivido
mais materialmente.
As sensações que a alma experimenta nesse momento são também muito
variáveis;
-
a
perturbação que segue a morte nada tem de penosa para
o homem de bem;
ela é calma e em tudo semelhante à sensação que
acompanha um despertar pacífico.
-
Para
aquele cuja consciência não é pura e que
está mais preso à vida corporal que à espiritual, ela é cheia
de ansiedade e de angústias que aumentam à medida que
ela se reconhece; porque então ela está tomada
de medo e de uma espécie de terror em presença
daquilo que vê, e sobretudo daquilo que entrevê.
A sensação que se poderia chamar física é a de um
grande alívio e de um imenso bem-estar; sente-se
como livre de um fardo, e se está muito feliz por
não sentir mais as dores corporais que se sentia poucos instantes
antes de se sentir livre, desligado e alerta como quem viesse a ser
libertado de pesadas correntes.
Na sua nova situação, a alma vê e ouve o que via e ouvia antes da
morte, mas vê e ouve outras coisas que escapam à
grosseria dos órgãos corporais; ela tem
sensações e percepções que nos são desconhecidas (Revista
Espírita, 1859, pág. 224: Morte de um espírita - Idem, 1860, pág.
332: O sonho do Espírito - Idem, 1862, pág. 129 e 171: Funerais de
M. Sanson).
Nota: Estas respostas, e todas aquelas relativas à situação
da alma depois
da morte ou durante a vida, não são o resultado de uma teoria
ou de um sistema, mas de estudos diretos feitos sobre
milhares de indivíduos observados em todas as fases
e em todos os períodos da sua existência
espiritual, desde o mais baixo até o mais alto grau da escala, segundo
seus hábitos durante a vida terrestre, o gênero de morte, etc. Diz-se,
freqüentemente, falando da vida espiritual, que não se sabe o que
lá se passa porque pessoa alguma dela retornou; é um erro, uma vez
que são precisamente os que lá se encontram que vêm dela nos instruir,
e Deus o permite hoje mais que em nenhuma outra época, como
última advertência dada à incredulidade e ao materialismo.
As faculdades perceptivas da alma são proporcionais à sua
depuração; não é dado senão às almas de elite
gozar da presença de Deus.
Deus está por toda parte porque ele irradia por toda parte, e pode-se
dizer que o Universo
está mergulhado na divindade, como nós estamos mergulhados
na luz solar. Mas os Espíritos atrasados são rodeados de uma
espécie de neblina que o oculta aos seus olhos, e que não se dissipa
senão à medida que eles se depuram e se desmaterializam. Os Espíritos
inferiores são, pela vista, com relação a Deus, o que os encarnados
são com relação aos Espíritos: verdadeiros cegos.
Se as almas não tivessem mais individualidade depois
da morte, seria para elas, e para nós,
como se não existissem, e as conseqüências morais
seriam exatamente as mesmas. Elas não teriam nenhum caráter distintivo,
e a do criminoso estaria no mesmo plano da do homem de bem,
do que resultaria que não se teria nenhum interesse em fazer o bem.
A individualidade da alma foi posta a descoberto de uma maneira,
por assim dizer, material, nas manifestações_espíritas, pela linguagem e as qualidades
próprias de cada uma; uma vez que elas pensam e agem de uma
maneira diferente, que umas são boas e outras más, umas sábias e
outras ignorantes, umas querem o que outras não querem,
isso é a prova evidente de que elas não_estão_confundidas_num_todo_homogêneo, sem
falar das provas patentes que nos dão de terem animado tal ou tal indivíduo
sobre a Terra.
Graças ao Espiritismo
experimental, a individualidade da alma não
é mais uma coisa vaga, porém um resultado da
observação.
A própria alma constata sua individualidade, porque tem pensamento e
vontade próprios, distintos das outras; ela a constata, ainda, pelo seu envoltório_fluídico ou perispírito, espécie de corpo limitado
que faz dela ser à parte.
Nota: Certas pessoas crêem fugir à censura de materialismo
admitindo um princípio_inteligente universal do qual absorvemos uma parte ao nascer,
o que constitui a alma, para devolvê-la depois da morte à massa comum
onde ela se confunde como as gotas d'agua no Oceano. Esse sistema,
espécie de transação, não merece o nome de espiritualismo, comum
do todo universal equivaleria ao nada, uma vez que aí não haveria
mais individualidades.
O
estado da alma varia consideravelmente segundo o gênero de morte,
mas, sobretudo, segundo a natureza dos hábitos que teve
durante a vida.
-
Na
morte natural, o desligamento se opera gradualmente e sem
abalo; freqüentemente, ele começa mesmo antes que a
vida se extinga.
-
Na
morte_violenta
por suplício, suicídio
ou acidente, os laços se rompem bruscamente; o
Espírito, surpreendido pelo imprevisto, fica como atordoado
pela mudança que nele se opera e não compreende sua situação.
Um fenômeno mais ou menos constante, em semelhante caso, é
a persuasão em que se acha de não estar morto, e essa ilusão pode
durar vários meses e mesmo vários anos. Nesse estado,
vai, vem e crê aplicar-se aos seus trabalhos, como
se fosse ainda deste mundo, muito espantado que não
respondem quando ele fala. Essa ilusão não é exclusivamente
dos casos de mortes violentas; é encontrada nos indivíduos
cuja vida foi absorvida pelos gozos
e interesses materiais. (O Livro dos Espíritos, nº
165 - Revista Espírita, 1858, pág. 166: O suicida da
Samaritaine - Idem, 1858, pág. 326: Um espírito no enterro do seu
corpo - Idem, 1859, pág. 184: O Zuavo de Magenta - Idem,
1859, pág. 319: Um Espírito que não se crê morto
- Idem, 1863, pág. 97: François Simon Louvet).
Ela não se perde na imensidade do Infinito, como
geralmente se figura; ela erra_no_espaço e, o mais freqüentemente, no meio daqueles que
conheceu, e sobretudo daqueles que amou, podendo se
transportar instantaneamente a distâncias imensas.
Ela conserva todas as afeições morais; não esquece
senão as afeições materiais que não são mais da
sua essência. Por isso, vem com alegria rever seus
parentes e seus amigos, e é feliz por dela se lembrarem (Revista
Espírita, 1860, pág. 202: Os amigos não nos esquecem no outro
mundo. 11 - Idem, 1862, pág. 132).
Dependendo da sua elevação e da natureza dos seus trabalhos, a alma
conserva a lembrança do que fez sobre a Terra, se interessa
pelos trabalhos que deixou inacabados. Os Espíritos
desmaterializados pouco se preocupam com as coisas materiais,
das quais são felizes de estarem livres. Quanto aos
trabalhos que começaram, segundo a sua importância
e a sua utilidade, eles inspiram,
algumas vezes a outros o pensamento de terminá-los.
A alma não somente reencontra, no mundo dos Espíritos, os parentes e
amigos que a precederam, mas reencontra aí muitos
outros que havia conhecido nas suas precedentes
existências. Geralmente, aqueles que por ela mais
se afeiçoam vêm recebê-la na sua chegada ao mundo_dos_Espíritos, e a ajudam a
se libertar dos laços terrestres. Entretanto, a privação
do reencontro com as almas mais queridas, algumas vezes, é uma
punição para as almas culpadas.
O
desenvolvimento incompleto dos órgãos da criança
morta em tenra idade não permitiu ao Espírito
se manifestar completamente; liberto desse envoltório, suas faculdades
são as que tinha antes da sua encarnação. O Espírito não tendo
passado senão alguns instantes na vida, suas faculdades não puderam
se modificar.
Nota: Nas comunicações_espíritas, o Espírito de uma criança pode, pois, falar
como o de um adulto, porque pode ser um Espírito muito avançado. Se
toma, algumas vezes, a linguagem infantil é para não tirar da mãe o
encanto de um ser frágil e delicado e enfeitado com as
graças da inocência. (Revista Espírita, 1858,
pág. 17: Mãe! eu estou aí).
A mesma pergunta podendo ser feita sobre o estado intelectual da alma
dos cretinos,
dos idiotas e dos loucos, depois da
morte, encontra sua solução na
precedente.
A questão da sorte das crianças que morrem em tenra idade é uma das que provam melhor a justiça e a
necessidade da pluralidade das
existências.
-
Uma
alma que não tivesse vivido senão alguns
instantes, não tendo feito nem bem nem mal, não mereceria nem
recompensa nem punição.
-
Segundo a máxima do Cristo, de que cada
um é punido ou recompensado segundo suas obras, seria, tanto ilógico
como contrário à justiça de Deus admitir-se que, sem trabalho, ela
fosse chamada a gozar da felicidade perfeita dos anjos, ou que pudesse
disso ser privada, e, todavia, ela deve ter uma sorte qualquer; um
estado misto, pela eternidade, seria também injusto.
-
Interrompida uma
existência desde o seu princípio, não podendo ter, pois, nenhuma
conseqüência para a alma, sua sorte atual é a que
merecia na sua precedente existência, e sua sorte
futura aquela que merecerá nas suas existências
ulteriores.
As_almas_progridem_intelectual_e_moralmente, depois
da morte, mais ou menos segundo sua vontade, e algumas progridem
muito, mas têm necessidade de porem em prática, durante a vida
corporal, o que adquiriram em ciência e em moralidade. Aquelas que
estão estacionárias retomam uma existência análoga à que deixaram;
as que progrediram merecem uma encarnação de uma ordem mais
elevada.
O progresso, sendo proporcional à vontade do Espírito, há os que
conservam por longo tempo os gostos e as tendências que
tinham durante a vida, e que perseguem as mesmas
idéias. (Revista Espírita, 1858, pág. 82: A
rainha de Oude - Idem, pág. 145: O Espírito e os herdeiros
- Idem, pág. 186: O tambor da Béresina - Idem, 1859, pág 344:
Um antigo carreteiro - Idem, 1860, pág. 325: Progresso dos Espíritos
- Idem, 1861, pág. 126: Progresso de um Espírito perverso).
Se a
almas não se ocupassem senão de si mesmas durante a eternidade, isso
seria egoísmo, e Deus, que condena o egoísmo, não aprovaria na vida
espiritual o que pune na vida corporal. As almas ou Espíritos têm
ocupações de acordo com seu grau de adiantamento, ao
mesmo tempo que procuram se instruírem e
melhorarem. (O Livro dos Espíritos, nº 558:
Ocupações e missões dos Espíritos).
A fixação irrevogável da sorte do homem
depois da morte seria a negação absoluta da
justiça e da bondade de Deus, porque há muitos que
não dependeram de si mesmos para se esclarecerem suficientemente,
sem falar dos idiotas, dos cretinos e dos selvagens, e das
inumeráveis crianças que morrem antes de terem entrevisto a
vida.
-
Mesmo entre as pessoas esclarecidas, há muitas que puderam
crer-se bastante perfeitas para estarem dispensadas
de fazer mais, e isso não é uma prova manifesta
que Deus dá da sua bondade, permitindo ao homem
fazer no dia seguinte o que não fez na véspera?
(Ver: Reencarnação)
-
Se a sorte está irrevogavelmente
fixada, por que os homens morrem em idades tão diferentes,
e por que Deus, na sua justiça, não deixa a todos o tempo para
fazerem o maior bem possível ou reparar o mal que fizeram?
-
Quem sabe
se o culpado que morreu aos trinta anos, não estaria arrependido, não
teria se tornado um homem de bem, se vivesse até os sessenta anos?
-
Por que Deus lhes tira esse meio enquanto dá a outros?
Só o fato da
diversidade da duração da vida, e do estado moral da grande maioria
dos homens, prova a impossibilidade, se se admite a
justiça de Deus, de que a sorte da alma seja
irrevogavelmente fixada depois da morte.
A
Igreja, hoje, reconhece perfeitamente que o fogo do Inferno é um fogo
moral e não um fogo material, todavia, não define a natureza_dos_sofrimentos.
As comunicações espíritas os colocam sob nossos olhos; por
esse meio, nós podemos apreciá-los e nos convencer de que, por não
ser o resultado de um fogo material, que não poderia queimar, com efeito,
almas imateriais, eles não são menos terríveis em certos casos. Essas_penas não são uniformes e variam ao infinito, segundo a natureza e
o grau das faltas cometidas, e são, quase sempre, essas próprias faltas
que servem ao castigo.
-
É assim que certos
homicidas são constrangidos
a permanecerem sobre o lugar do crime e a ter, sem cessar,
suas vítimas sob seus olhos;
-
que o homem de gostos sensuais e materiais
conserva esses mesmos gostos, mas a impossibilidade de os satisfazer
materialmente é para ele uma tortura;
-
que certos avarentos crêem
sofrer o frio e as privações que suportaram durante a vida por avareza;
-
outros permanecem perto dos tesouros que enterraram e estão
em transe perpétuo pelo medo que os roubem;
-
não
há uma falta, uma imperfeição moral, uma ação má que não tenha,
no mundo_dos_Espíritos, sua contrapartida e suas
conseqüências naturais; e, para isso não há
necessidade de um lugar determinado e circunscrito:
por toda parte em que se encontre, o Espírito perverso carrega
seu inferno consigo.
Além das penas_espirituais, há penas e provas materiais que o Espírito,
que não está depurado, suporta nas novas_encarnações,
onde é colocado numa posição para suportar o que
fez os outros suportarem:
-
ser humilhado, se foi
orgulhoso;
-
miserável, se foi mau rico;
-
infeliz por seu
filho, se foi um mau filho, etc.
A Terra, como dissemos, é um lugar
de exílio e de expiação, um
purgatório, para os
Espíritos dessa natureza, e no qual depende de cada
um não retornar, melhorando-se bastante para
merecer ir a um mundo melhor (O Livro dos Espíritos, nº 237: Percepções,
sensações e sofrimento dos Espíritos - Idem, livro Quarto: Esperanças
e consolações; penas e gozos futuros - Revista Espírita, 1858,
pág. 79: O assassino Lemaire - Idem, 1858, pág. 166: O suicida da
Samaritaine - Idem, 1858, pág. 331: Sensações dos Espíritos - Idem,
1859, pág. 275: O pai Crépin - Idem, 1860, pág. 61:
Estelle Régnier - Idem, 1860, pág. 247: O suicida
da rua Quincampoix - Idem, 1860, pág. 316: O
castigo - Idem, 1860, pág. 325: Entrada de um culpado no mundo
dos Espíritos - Idem, 1860, pág. 384: Castigo do egoísta - Idem,
1861, pág. 53: Suicídio de um ateu - Idem, 1861, pág.
270: A pena de talião).
A prece é
recomendada por todos os bons_Espíritos; por outro lado, ela é
pedida pelos Espíritos_imperfeitos como um meio de aliviar seus sofrimentos.
A alma pela qual se ora experimenta alívio, porque é um testemunho
de interesse e o infeliz é sempre aliviado quando encontra corações
caridosos que se compadecem de suas dores. Por outro lado, ainda
pela prece, estimula-se ao arrependimento e ao desejo de fazer o que
é preciso para ser feliz; é nesse sentido que se pode abreviar sua
pena se, por sua vez, ela secunda pela sua boa vontade (O
Livro dos Espíritos, nº 664 - Revista Espírita,
1859, pág. 315: Efeitos da prece sobre os
Espíritos sofredores).
A justiça quer que a recompensa
seja proporcional ao mérito, como a punição à
gravidade da falta; há, portanto, graus infinitos nos gozos da alma,
desde o instante em que ela entra no caminho do bem, até que atinja
a perfeição.
A felicidade dos bons Espíritos consiste em:
O amor que as une é, para elas, a fonte
de uma suprema felicidade. Elas não experimentam nem
as necessidades, nem os sofrimentos, nem as angústias da vida material.
Um estado de contemplação perpétua seria uma felicidade estúpida
e monótona, própria do egoísta, uma vez que sua existência seria
uma inutilidade sem limites. A vida espiritual, ao contrário, é uma
atividade incessante pelas missões que os Espíritos
recebem do ser supremo, como sendo seus agentes no
governo do Universo; missões que são proporcionais
ao seu adiantamento e das quais são felizes, porque
lhes fornecem ocasiões de se tornarem úteis e de fazerem o bem. (O
Livro dos Espíritos, nº 558: Ocupações e missões dos Espíritos -
Revista Espírita, 1860, pág. 321 e 322; Os Espíritos
puros; a morada dos bem-aventurados - Idem, 1861,
pág. 179: Madame Gourdon). Nota: Convidamos os
adversários do Espiritismo e aqueles que não admitem
a reencarnação, a darem aos problemas acima uma solução mais
lógica, por qualquer outro princípio que o da pluralidade das existências.
Depois da morte, a diferença entre
a alma do sábio e do ignorante, do selvagem e do
homem civilizado, é a mesma diferença, aproximadamente, que existe entre
eles durante a vida, porque a entrada no mundo
dos Espíritos não dá à alma todos os conhecimentos
que lhe faltavam sobre a Terra.
Allan
Kardec
[78
- O homem depois da morte] |