A libertação da alma e do corpo se
opera gradualmente e com uma lentidão variável, segundo
os indivíduos e as circunstâncias da morte.
Os laços que unem a alma ao corpo não se rompem senão pouco a pouco, e tanto menos rapidamente quanto a vida foi mais material e mais sensual. [1] No momento da morte, primeiro tudo é confuso; a alma precisa de algum tempo para se reconhecer, porque está meio atordoada, e no estado de um homem saindo de sono profundo e que procura inteirar-se da sua situação. A lucidez das ideias e a memória do passado lhe retornam à medida que se desfaz a influência da matéria da qual acaba de se libertar, e que se dissipa a espécie de bruma que obscurece seus pensamentos. A duração da perturbação que se segue à morte é muito variável; pode ser de algumas horas somente, como de vários dias, de vários meses e mesmo de vários anos. Ela é menos longa naqueles que, durante a vida, se identificaram com seu estado futuro, porque compreendem imediatamente sua situação; é tanto mais longa quanto o homem tenha vivido mais materialmente. As sensações que a alma experimenta nesse momento são também muito variáveis; ...
A sensação que se poderia chamar física é a de um grande alívio e de um imenso bem-estar; sente-se como livre de um fardo, e se está muito feliz por não sentir mais as dores corporais que se sentia poucos instantes antes de se sentir livre, desligado e alerta como quem viesse a ser libertado de pesadas correntes. Na sua nova situação, a alma vê e ouve o que via e ouvia antes da morte, mas vê e ouve outras coisas que escapam à grosseria dos órgãos corporais; ela tem sensações e percepções que nos são desconhecidas [2].
Nota: Estas respostas, e todas aquelas relativas à situação da alma depois da morte ou durante a vida, não são o resultado de uma teoriaou de um sistema, mas de estudos diretos feitos sobre milhares de indivíduos observados em todas as fases e em todos os períodos da sua existência espiritual, desde o mais baixo até o mais alto grau da escala, segundo seus hábitos durante a vida terrestre, o gênero de morte, etc. Diz-se, freqüentemente, falando da vida espiritual, que não se sabe o que lá se passa porque pessoa alguma dela retornou; é um erro, uma vez que são precisamente os que lá se encontram que vêm dela nos instruir, e Deus o permite hoje mais que em nenhuma outra época, como última advertência dada à incredulidade e ao materialismo.
As faculdades perceptivas da alma são proporcionais à sua
depuração; não é dado senão às almas de elite
gozar da presença de Deus.
Deus está por toda parte porque ele irradia por toda parte, e pode-se dizer que o Universo está mergulhado na divindade, como nós estamos mergulhados na luz solar. Mas os Espíritos atrasados são rodeados de uma espécie de neblina que o oculta aos seus olhos, e que não se dissipa senão à medida que eles se depuram e se desmaterializam. Os Espíritos inferiores são, pela vista, com relação a Deus, o que os encarnados são com relação aos Espíritos: verdadeiros cegos. Se as almas não tivessem mais individualidade depois da morte, seria para elas, e para nós, como se não existissem, e as conseqüências morais seriam exatamente as mesmas. Elas não teriam nenhum caráter distintivo, e a do criminoso estaria no mesmo plano da do homem debem, do que resultaria que não se teria nenhum interesse em fazer o bem. A individualidade da alma foi posta a descoberto de uma maneira, por assim dizer, material, nas manifestações espíritas, pela linguagem e as qualidades próprias de cada uma; uma vez que elas pensam e agem de uma maneira diferente, que umas são boas e outras más, umas sábias e outras ignorantes, umas querem o que outras não querem, isso é a prova evidente de que elas não estão confundidas num todo homogêneo, sem falar das provas patentes que nos dão de terem animado tal ou tal indivíduo sobre a Terra. Graças ao Espiritismo experimental, a individualidade da alma não é mais uma coisa vaga, porém um resultado da observação. A própria alma constata sua individualidade, porque tem pensamento e vontade próprios, distintos das outras; ela a constata, ainda, pelo seu envoltório fluídico ou perispírito, espécie de corpo limitado que faz dela ser à parte. Nota: Certas pessoas crêem fugir à censura de materialismo
admitindo um princípio inteligente universal do qual absorvemos uma parte ao nascer,
o que constitui a alma, para devolvê-la depois da morte à massa comum
onde ela se confunde como as gotas d'agua no Oceano. Esse sistema,
espécie de transação, não merece o nome de espiritualismo, comum
do todo universal equivaleria ao nada, uma vez que aí não haveria
mais individualidades. O estado da alma varia consideravelmente segundo o gênero de morte, mas, sobretudo, segundo a natureza dos hábitos que teve durante a vida.
Na morte natural, o desligamento se opera gradualmente e sem
abalo; freqüentemente, ele começa mesmo antes que a
vida se extinga. Na morte violenta por suplício, suicídio ou acidente, os laços se rompem bruscamente; o Espírito, surpreendido pelo imprevisto, fica como atordoado pela mudança que nele se opera e não compreende sua situação. Um fenômeno mais ou menos constante, em semelhante caso, é a persuasão em que se acha de não estar morto, e essa ilusão pode durar vários meses e mesmo vários anos.
Nesse estado,
vai, vem e crê aplicar-se aos seus trabalhos, como
se fosse ainda deste mundo, muito espantado que não
respondem quando ele fala.
Essa ilusão não é exclusivamente dos casos de mortes violentas; é encontrada nos indivíduos cuja vida foi absorvida pelos gozos e interesses materiais. [3]. A Alma não se perde na imensidade do Infinito, como geralmente se figura; ela erra no espaço e, o mais freqüentemente, no meio daqueles que conheceu, e sobretudo daqueles que amou, podendo se transportar instantaneamente a distâncias imensas. Ela conserva todas as afeições morais; não esquece senão as afeições materiais que não são mais da sua essência. Por isso, vem com alegria rever seus parentes e seus amigos, e é feliz por dela se lembrarem [4]. Dependendo da sua elevação e da natureza dos seus trabalhos, a alma conserva a lembrança do que fez sobre a Terra, se interessa pelos trabalhos que deixou inacabados. Os Espíritos desmaterializados pouco se preocupam com as coisas materiais, das quais são felizes de estarem livres. Quanto aos trabalhos que começaram, segundo a sua importância e a sua utilidade, eles inspiram, algumas vezes a outros o pensamento de terminá-los. A alma não somente reencontra, no mundo dos Espíritos, os parentes e amigos que a precederam, mas reencontra aí muitos outros que havia conhecido nas suas precedentes existências. Geralmente, aqueles que por ela mais se afeiçoam vêm recebê-la na sua chegada ao mundo dos Espíritos, e a ajudam a se libertar dos laços terrestres. Entretanto, a privação do reencontro com as almas mais queridas, algumas vezes, é uma punição para as almas culpadas. O desenvolvimento incompleto dos órgãos da criança morta em tenra idade não permitiu ao Espírito se manifestar completamente; liberto desse envoltório, suas faculdades são as que tinha antes da sua encarnação. O Espírito não tendo passado senão alguns instantes na vida, suas faculdades não puderam se modificar. Nota: Nas comunicações espíritas, o Espírito de uma criança pode, pois, falar como o de um adulto, porque pode ser um Espírito muito avançado. Se toma, algumas vezes, a linguagem infantil é para não tirar da mãe o encanto de um ser frágil e delicado e enfeitado com as graças da inocência. [5] A mesma pergunta podendo ser feita sobre o estado intelectual da alma dos cretinos, dos idiotas e dos loucos, depois da morte, encontra sua solução na precedente. A questão da sorte das crianças que morrem em tenra idade é uma das que provam melhor a justiça e a necessidade da pluralidade das existências.
As almas progridem intelectual e moralmente, depois
da morte, mais ou menos segundo sua vontade, e algumas progridem
muito, mas têm necessidade de porem em prática, durante a vida
corporal, o que adquiriram em ciência e em moralidade. Se a almas não se ocupassem senão de si mesmas durante a eternidade, isso seria egoísmo, e Deus, que condena o egoísmo, não aprovaria na vida espiritual o que pune na vida corporal. As almas ou Espíritos têm ocupações de acordo com seu grau de adiantamento, ao mesmo tempo que procuram se instruírem e melhorarem. [7] A fixação irrevogável da sorte do homem depois da morte seria a negação absoluta da justiça e da bondade de Deus, porque há muitos que não dependeram de si mesmos para se esclarecerem suficientemente, sem falar dos idiotas, dos cretinos e dos selvagens, e das inumeráveis crianças que morrem antes de terem entrevisto a vida.
Só o fato da diversidade da duração da vida, e do estado moral da grande maioria dos homens, prova a impossibilidade, se se admite a justiça de Deus, de que a sorte da alma seja irrevogavelmente fixada depois da morte. A Igreja, hoje, reconhece perfeitamente que o fogo do Inferno é um fogo moral e não um fogo material, todavia, não define a natureza dos sofrimentos. As comunicações espíritas os colocam sob nossos olhos; por esse meio, nós podemos apreciá-los e nos convencer de que, por não ser o resultado de um fogo material, que não poderia queimar, com efeito, almas imateriais, eles não são menos terríveis em certos casos. Essas penas não são uniformes e variam ao infinito, segundo a natureza e o grau das faltas cometidas, e são, quase sempre, essas próprias faltas que servem ao castigo.
Além das penas espirituais, há penas e provas materiais que o Espírito,
que não está depurado, suporta nas novas encarnações,
onde é colocado numa posição para suportar o que
fez os outros suportarem:
A Terra, como dissemos, é um lugar de exílio e de expiação, um purgatório, para os Espíritos dessa natureza, e no qual depende de cada um não retornar, melhorando-se bastante para merecer ir a um mundo melhor [8]. A_prece é recomendada por todos os bons Espíritos; por outro lado, ela é pedida pelos Espíritos imperfeitos como um meio de aliviar seus sofrimentos. A alma pela qual se ora experimenta alívio, porque é um testemunho de interesse e o infeliz é sempre aliviado quando encontra corações caridosos que se compadecem de suas dores. Por outro lado, ainda pela prece, estimula-se ao arrependimento e ao desejo de fazer o que é preciso para ser feliz; é nesse sentido que se pode abreviar sua pena se, por sua vez, ela secunda pela sua boa vontade [9]. A justiça quer que a recompensa seja proporcional ao mérito, como a punição à gravidade da falta; há, portanto, graus infinitos nos gozos da alma, desde o instante em que ela entra no caminho do bem, até que atinja a perfeição. A felicidade dos bons Espíritos consiste em ...
O amor que as une é, para elas, a fonte de uma suprema felicidade. Elas não experimentam nem as necessidades, nem os sofrimentos, nem as angústias da vida material. Um estado de contemplação perpétua seria uma felicidade estúpida e monótona, própria do egoísta, uma vez que sua existência seria uma inutilidade sem limites. A vida espiritual, ao contrário, é uma atividade incessante pelas missões que os Espíritos recebem do ser supremo, como sendo seus agentes no governo do Universo; missões que são proporcionais ao seu adiantamento e das quais são felizes, porque lhes fornecem ocasiões de se tornarem úteis e de fazerem o bem. [10] Nota: Convidamos os adversários do Espiritismo e aqueles que não admitem a reencarnação, a darem aos problemas acima uma solução mais lógica, por qualquer outro princípio que o da pluralidade das existências. Depois da morte, a diferença entre a alma do sábio e do ignorante, do selvagem e do homem civilizado, é a mesma diferença, aproximadamente, que existe entre eles durante a vida, porque a entrada no mundo dos Espíritos não dá à alma todos os conhecimentos que lhe faltavam sobre a Terra. Allan Kardec [78
- O homem depois da morte] [1] - (O Livro dos Espíritos, nº 155) [2] - (Revista Espírita, 1859, página 224: Morte de um espírita - Idem, 1860, página 332: O sonho do Espírito - Idem, 1862, página 129 e 171: Funerais de M. Sanson) [3] - (O Livro dos Espíritos, nº 165 - Revista Espírita, 1858, página 166: O suicida da Samaritaine - Idem, 1858, página 326: Um espírito no enterro do seu corpo - Idem, 1859, página 184: O Zuavo de Magenta - Idem, 1859, página 319: Um Espírito que não se crê morto - Idem, 1863, página 97: François Simon Louvet) [4] - (Revista Espírita, 1860, página 202: Os amigos não nos esquecem no outro mundo. 11 - Idem, 1862, página 132). [5] - (Revista Espírita, 1858, página 17: Mãe! eu estou aí) [6] - (Revista Espírita, 1858, página 82: A rainha de Oude - Idem, página 145: O Espírito e os herdeiros - Idem, página 186: O tambor da Béresina - Idem, 1859, pág 344: Um antigo carreteiro - Idem, 1860, página 325: Progresso dos Espíritos - Idem, 1861, página 126: Progresso de um Espírito perverso). [7] - (O Livro dos Espíritos, nº 558: Ocupações e missões dos Espíritos). [8] - (O Livro dos Espíritos, nº 237: Percepções, sensações e sofrimento dos Espíritos - Idem, livro Quarto: Esperanças e consolações; penas e gozos futuros - Revista Espírita, 1858, página 79: O assassino Lemaire - Idem, 1858, página 166: O suicida da Samaritaine - Idem, 1858, página 331: Sensações dos Espíritos - Idem, 1859, página 275: O pai Crépin - Idem, 1860, página 61: Estelle Régnier - Idem, 1860, página 247: O suicida da rua Quincampoix - Idem, 1860, página 316: O castigo - Idem, 1860, página 325: Entrada de um culpado no mundo dos Espíritos - Idem, 1860, página 384: Castigo do egoísta - Idem, 1861, página 53: Suicídio de um ateu - Idem, 1861, página 270: A pena de talião) [9] - (O Livro dos Espíritos, nº 664 - Revista Espírita, 1859, página 315: Efeitos da prece sobre os Espíritos sofredores). [10] - (O Livro dos Espíritos, nº 558: Ocupações e missões dos Espíritos - Revista Espírita, 1860, página 321 e 322; Os Espíritos puros; a morada dos bem-aventurados - Idem, 1861, página 179: Madame Gourdon). |
DESAPARECIDOS (Crianças e Adolescentes)
