Deus
criou todos os Espíritos simples e ignorantes, isto é, sem saber. A cada um à
perfeição, pelo conhecimento da verdade, para aproximá-los de si. Nesta
perfeição é que eles encontram a pura e
eterna felicidade. Passando pelas provas
que Deus lhes impõe é que os Espíritos adquirem
aquele conhecimento.
-
Uns aceitam submissos essas provas e chegam mais
depressa à meta que lhes foi assinada.
-
Outros só a suportam
murmurando e, pela falta em que desse modo incorrem, permanecem afastados da perfeição e da prometida felicidade.
[9a
- página 95 questão 115] |
Os
Espíritos não podem degenerar.
-
À medida que
avançam, compreendem o que os distanciava da perfeição.
-
Concluindo
uma prova, o Espírito
fica com a ciência que daí lhe veio e não a esquece.
-
Pode permanecer
estacionário, mas não retrograda.
[9a
- página 96 questão 118]
Um
homem pode, nas suas novas existências, descer mais baixo do que esteja na
atual, com relação à posição
social, mas não como Espírito.
[9a
- página 131 questão 193]
Se
Deus os houvesse criado perfeitos, nenhum mérito teriam para gozar dos
benefícios dessa perfeição. Demais, a desigualdade entre eles existente é necessária
às suas personalidades. Acresce ainda que as missões
que desempenham nos diferentes graus da escala
estão nos desígnios da Providência, para a harmonia
do Universo.
[9a
- página 97 questão 119]
É
necessário...
- purificar, antes de tudo, o nosso coração,
- expurgar os resíduos
deletérios das paixões,
- recalcar os instintos inferiores,
- dominar as expansões
da animalidade,
-
libertar, enfim, a Alma do jugo da matéria, para
sorvermos a longos haustos os fluidos de uma atmosfera superior que nos porá no
caminho da lei divina e cuja sanção
nos aguardará infalivelmente.
Quanto mais rápida for essa transformação,
tanto mais acelerada será a nossa ascensão às culminâncias do conhecimento
universal. Esse é o preparo moral e espiritual para a reforma do indivíduo e,
portanto, para o progresso da
Humanidade.
[23
- página 7]
Para
chegar à perfeição e à suprema felicidade, destino final de todos os homens,
o Espírito não tem que passar pela fieira de todos os mundos existentes no
Universo. Muitos_são_os_mundos correspondentes a cada grau
da respectiva escala e o Espírito, saindo de um
deles, nenhuma coisa nova aprenderia nos outros do mesmo
grau.
[9a
- página 124 questão 177]
Entre
o estado correspondente às últimas encarnações e
o de Espírito_puro, não há linha divisória perfeitamente demarcada. Semelhante
demarcação não existe. A diferença entre um e outro estado se vai apagando
pouco a pouco e acaba por ser imperceptível, tal qual se dá com a noite às primeiras claridades do alvorecer.
[9a
- página 127
questão 186]

|
Ninguém
pode, mesmo por um proceder impecável na
vida atual, transpor todos os graus
da escala do aperfeiçoamento e tornar-se Espírito_puro, sem passar por outros
graus_intermédios o que o homem julga perfeito longe está da perfeição. Há qualidades que
lhe
são desconhecidas e incompreensíveis. Poderá ser tão perfeito quanto o
comporte a sua natureza
terrena, mas isso não é a perfeição absoluta. Dá-se com o Espírito o que
se verifica com
a criança que, por mais precoce que seja, tem de passar pela juventude, antes
de chegar à
idade da madureza; e também com o enfermo que, para recobrar a saúde, tem que
passar pela
convalescença. Demais, ao Espírito cumpre progredir em ciência e em moral. Se
somente
se adiantou num sentido, importa se adiante no outro, para atingir o extremo superior
da escala. Contudo, quanto mais
o homem se adiantar na sua vida atual, tanto menos longas e penosas lhe serão
as provas
que se seguirem. Entretanto, pode ao menos o homem, na vida presente, preparar
com segurança, para si, uma
existência futura menos prenhe de amarguras. Pode
reduzir a extensão e as dificuldades do caminho. Só
o descuidoso
permanece sempre no mesmo ponto.
[9a
- página 131 questão 192] |
"Compreendemos, destarte, que na variação de
nossas experiências adquirimos, gradativamente, qualidades divinas, como sejam ...
[25
- página 157]
- André Luiz
|
Para que se efetue a jornada
iluminativa do espírito é indispensável ...
-
deslocar
a mente,
-
revolver
as ideias,
-
renovar
as concepções
-
e
modificar, invariavelmente, para o bem maior o modo_íntimo_de_ser, tal qual
procedemos com o solo na revivificação da lavoura produtiva ou com
qualquer instituto humano em reestruturação para o progresso geral.
Negando-se,
porém, a alma a receber o
auxilio divino, através dos processos de transformação incessante que lhe são
oferecidos, em seu benefício próprio, pelas diferentes situações de que os
dias se compõem no aprendizado carnal, recolhe-se à margem da estrada, criando
paisagens perturbadoras com desejos
injustificáveis.
[25
- página 157]
- André Luiz |
Na diversidade de suas experiências, o Espírito é obrigado a adaptar-se às
condições fluídicas de cada_orge. Este é um imperativo para aquisição
de seus valores evolutivos dentro das leis do aperfeiçoamento.
[41a
- página 57]
- Emmanuel - 1940
O progresso mental é o grande doador de
renovação ao equipamento do
espírito em qualquer plano de evolução.
[10
- página 31] - Emmanuel 1952
É necessário encarar-se a situação dos desencarnados com a precisa naturalidade. Não há forças miraculosas para os seres humanos,
como não existem igualmente para os espíritos. O livre-arbítrio relativo nunca é ab-rogado em todos nós; em conjunto, somos obrigados, em
qualquer plano da vida, a trabalhar pelo nosso próprio
adiantamento.
[71
- página 23]
- Emmanuel
Todas as aquisições espirituais exigem perseverança no estudo, na observação e no serviço_aplicado. E devemos considerar que isso não infirma a necessidade de aprender sempre. O músico exímio poderá ser aprendiz incipiente da Química, destacando-se, mais tarde, nesse campo científico, como se verifica na arte dos sons. Não alcançará, todavia, a realização, sem gastar tempo, esforço e boa vontade. Aliás, o próprio Mestre assegurou que o homem encontrará aquilo que procurar. (Ver: Evangelho de Tomé)
A busca de dons espirituais para a vida eterna não representa serviço igual à cata de objetos perdidos na Crosta.
Não podemos edificar todas as qualidades nobres de uma só vez. Cada trabalhador fiel ao seu dever possui valor específico, incontestável. A Obra Divina é infinita.
[40 - página 57] - André Luiz
As experiências adquiridas pela alma constituem maravilhosas sínteses de percepção e sensibilidade, na condição
de Espíritos libertos, mas especificam-se no equipamento de matéria_densa como núcleos de controle das manifestações da
individualidade, perfeitamente analisáveis. É assim que a alma_encarnada possui no cérebro_físico os centros especiais que governam a cabeça, o rosto, os olhos, os ouvidos e os
membros, em conjunto com os centros da fala, da linguagem, da visão, da audição,
da memória, da escrita, do paladar, da deglutição, do tato, do olfato, do
registro de calor e frio, da dor, do equilíbrio muscular, da comunhão com os
valores internos da mente, da ligação com o mundo exterior, da imaginação,
do gosto estético, dos variados estímulos artísticos e tantos outros quantas
sejam as aquisições de experiência entesouradas pelo ser, que conquista
a própria individualidade, passo a passo e esforço a esforço, enaltecendo-a
pelo trabalho constante para a sublimação integral, à face de todas as vias
de progresso e
aprimoramento que a Terra lhe possa oferecer.
[28a
- página 33] - André Luiz
|
OS
PLANOS DO UNIVERSO SÃO INFINITOS
Para os desencarnados da minha esfera, o_primeiro_dia_do_Espírito é tão obscuro como o primeiro dia do
homem o é para a Humanidade. Somente sabemos que todos nós, indistintamente,
possuímos germens de santidade e de virtude, que podemos desenvolver ao
infinito.
Podendo conhecer a causa de alguns dos fenômenos do vosso mundo de formas, não
conhecemos o mundo causal dos efeitos que nos cercam, os quais constituem para vós
outros, encarnados, matéria imponderável em sua substância.
Se
para o vosso olhar existem seres invisíveis, também para o nosso eles existem,
em modalidade de vida que ainda estudamos nos seus primórdios, porquanto os
planos da evolução se caracterizam pela sua multiplicidade dentro do Infinito.
Aqui reconhecemos quão sublime é a lei
de liberdade das consciências e dessa emancipação provém a
necessidade da luta e do aprendizado.
[71
- página 40]
- Emmanuel
|
O FUTURO É A PERFEIÇÃO
Integrada no conhecimento de suas próprias necessidades de aprimoramento, a alma jamais abandona a luta. Volta_às_existências_preparatórias do
seu futuro glorioso. Reúne-se aos
seres que lhe são afins, desenvolvendo a sua atividade perseverante e incansável
nos carreiros da evolução.
Em existências obscuras, ao sopro das adversidades, amontoa os seus tesouros
imortais, simbolizados nas lições que aprende, devotadamente, nos sofrimentos que lhe apuram a sensibilidade. Cada etapa alcançada é um ciclo de dores
vencidas e de perfeições conquistadas.
[71
- página 41]
- Emmanuel
Somente os séculos, com o seu conseqüente aglomerado de experiências,
conseguem modificar as disposições cármicas
ou perispirituais de
cada indivíduo.
[71
- página 151]
- Emmanuel - 1938
|
No quadro exíguo dos vossos conhecimentos, busquemos uma figura que nos
convoque ao sentimento de solidariedade e de amor que deve imperar em
todos os departamentos da natureza visível e invisível.
-
O
mineral é atração.
-
O
vegetal é sensação.
-
O
animal é instinto,
-
O
homem é razão.
-
O
anjo é divindade.
Busquemos
reconhecer a infinidade de laços que nos unem nos valores gradativos da evolução
e ergamos em nosso íntimo o santuário eterno da fraternidade universal.
[41a
- página 58]
- Emmanuel - 1940 |
O crente deve esforçar-se o mais possível, mas, de modo algum, deve nutrir
a pretensão de atingir a superioridade espiritual completa, de uma só vez,
porquanto a vida humana é aprendizado de lutas purificadoras e, no cadinho do
resgate, nem sempre a temperatura pode
ser amena, alcançando, por vezes, ao mais alto grau para o desiderato do
acrisolamento.
Em todas as circunstâncias, guarde o cristão a prece
e a vigilância:
-
prece
ativa, que é o trabalho do bem,
-
e
vigilância, que é a prudência necessária, de modo a não trair
novos compromissos.
E,
nesse esforço, a alma
estará preparada a estruturar o futuro de si mesma, no caminho eterno do espaço
e do tempo, sem o desalento dos tristes e sem a inquietação dos mais afoitos.
[41a
- página 79]
- Emmanuel - 1940

Toda a
comunidade dos Espíritos encarnados na Terra,
ou localizados em suas esferas de labor espiritual mais ligadas ao planeta,
sentem a sagrada influência do Cristo, através da assistência de seus
prepostos; todavia, pouquíssimos alcançaram a pureza indispensável para a
contemplação do Mestre no seu plano divino.
[41a
- página 171]
- Emmanuel - 1940
O
Espírito humano não sofre o envelhecimento. Quando se manifestam envelhecidos, o fazem para comprovação de sua
identidade humana.
[1
- página 32]
Ninguém se eleva a pleno Céu, sem plena quitação_com_a_Terra, porquanto a ascensão
gradativa pode verificar-se, não obstante invariavelmente condicionada aos nossos merecimentos
nas conquistas já feitas. Os princípios de relatividade são perfeitamente cabíveis no assunto. Quanto mais
céu_interior na alma, através da sublimação da vida, mais ampla incursão da alma nos céus exteriores, até que se
realise a suprema comunhão dela com Deus, Nosso Pai. Para isso, como reconhecemos, é indispensável atender à justiça, e a Justiça Divina está inelutavelmente ligada a nós,
de vez que nenhuma felicidade ambiente será verdadeira felicidade em nós, sem a implícita aprovação
de nossa consciência.
[83
- página 250] - André Luiz
E que nenhum de nós admita o acesso fácil aos tesouros eternos, tão só porque atualmente nos vejamos libertos das cadeias beneméritas do corpo_de_carne. O Senhor criou leis imperecíveis e perfeitas para que não alcancemos o Reino da Divina Luz, ao sabor do acaso, e Espírito algum trairá os imperativos sábios do esforço e do tempo! Quem pretende a colheita de felicidade no século vindouro, comece desde agora a sementeira de amor e paz.
[96 - página 236] - Matilde, benfeitora espiritual - (ditado por André Luiz)
A vida não cessa. A vida é fonte eterna e a morte é jogo
escuro das ilusões.
O grande rio tem seu trajeto, antes do mar imenso.
Copiando-lhe a expressão, a alma percorre igualmente caminhos variados e etapas diversas, também recebe afluentes de
conhecimentos, aqui e ali, avoluma-se em expressão e purifica-se
em qualidade, antes de encontrar o Oceano Eterno da Sabedoria.
Cerrar os olhos carnais constitui operação demasiadamente
simples.
Permutar a roupagem física não decide o problema
fundamental da iluminação, como a troca de vestidos nada tem
que ver com as soluções profundas do destino e do ser.
Oh! caminhos das almas, misteriosos caminhos do coração! é mister percorrer-vos, antes de tentar a suprema equação da
Vida Eterna! é indispensável viver o vosso drama, conhecer-vos
detalhe a detalhe, no longo processo do aperfeiçoamento
espiritual!...
Seria extremamente infantil a crença de que o simples "baixar do pano" resolvesse transcendentes questões do Infinito. (Ver: Após a morte)
- Uma existência é um ato.
- Um corpo - uma veste.
- Um século - um dia.
- Um serviço - uma experiência.
- Um triunfo - uma aquisição.
- Uma morte - um sopro renovador.
Quantas existências, quantos corpos, quantos séculos,
quantos serviços, quantos triunfos, quantas mortes necessitamos
ainda?
E o letrado em filosofia religiosa fala de deliberações finais
e posições definitivas!
Ai! por toda parte, os cultos em doutrina e os analfabetos do
espírito!
é preciso muito esforço do homem para ingressar na
academia do Evangelho do Cristo, ingresso que se verifica, quase
sempre, de estranha maneira - ele só, na companhia do Mestre,
efetuando o curso difícil, recebendo lições sem cátedras visíveis
e ouvindo vastas dissertações sem palavras articuladas.
Muito longa, portanto, nossa jornada laboriosa.
[32 - página 13/14] - André Luiz
Se procuras, amigo, a luz espiritual; se a animalidade já te cansou o
coração, lembra-te de que, em Espiritualismo, a investigação conduz sempre
ao Infinito, tanto no que se refere ao campo infinitesimal, como à esfera dos
astros distantes, e que só a transformação de ti mesmo, à luz da
Espiritualidade Superior, te facultará acesso as fontes da Vida Divina. E,
sobretudo, recorda que as mensagens edificantes do Além não se destinam
apenas à expressão emocional, mas, acima de tudo, ao teu senso de filho de
Deus, para que faças o inventário de tuas próprias realizações e te integres, de
fato, na responsabilidade de viver diante do Senhor.
[103 - página 9] - Emmanuel - 1944
Todas as aquisições espirituais exigem perseverança no estudo, na observação e no serviço aplicado. E devemos considerar que isso não infirma a necessidade de aprender sempre. O músico exímio poderá ser aprendiz incipiente da Química, destacando-se, mais tarde, nesse campo científico, como se verifica na arte dos sons. Não alcançará, todavia, a realização, sem gastar tempo, esforço e boa vontade. Aliás, o próprio Mestre assegurou que o homem encontrará aquilo que procurar.
A busca de dons espirituais para a vida eterna não representa serviço igual à cata de objetos perdidos na Crosta.
Interveio a Irmã Zenóbia, acrescentando fraternalmente:
Sim, não podemos edificar todas as qualidades nobres de uma só vez. Cada trabalhador fiel ao seu dever possui valor específico, incontestável. A Obra Divina é infinita.
[40 - página 56/57] - André Luiz
Quando nosso espírito apreende alguma nesga da glória universal, desperta para as mais sublimes esperanças. Sonha com o acesso às esferas divinas, suspira pelo reencontro com amores santificados que o esperam em vanguardas distantes, aceitando, então, duros trabalhos de reajuste.
Que representam, em verdade, para nós, alguns decênios de renunciação_na_Terra, em confronto com a excelsitude dos séculos de felicidade em mundos de sabedoria e trabalho enaltecedor?!...
[4 - página 271] - André Luiz
O Instrutor Albano Metelo, responsável por muitas tarefas de auxílio aos ignorantes e sofredores dos círculos_imediatos_à_Crosta_Terrestre, mostrou uma chama de zelo sagrado nos olhos percucientes e exclamou, depois de curta reflexão:
— Nós, que procuramos a santidade e a justiça, ...
- alcançaríamos, acaso, semelhante orientação, se outras fossem as circunstâncias que nos regeram até aqui?
-
Construtores de nossos próprios destinos, por delegação natural do Criador, onde permaneceríamos, agora, sem os favores da oportunidade e o obséquio da proteção de benfeitores desvelados?
Indubitàvelmente, os ensejos de elevação felicitam todas as criaturas; no entanto, é imprescindível ponderar que a bênção da fonte pode converter-se em venenosa água estagnada, se a trancamos num poço incomunicável. E as dádivas recebidas por nós são inúmeras e os dons que nos foram distribuídos, imensos...
- Seria completo o nosso regozijo, havendo lágrimas atrás de nossos passos?
- como entoar hinos de hosana à felicidade sobre o coro dos soluços?
- Nobilíssimo, todo impulso de atingir o cume; entretanto, que veremos após a ascensão?
Entre os júbilos de alguns, identifIcaríamos a ruína e a miséria de multidões incalculáveis!...
Nesse momento, envolvido nas vibrações de profundo interesse dos ouvintes, imprimiu novo acento ao verbo luminoso e tornou com indefinível melancolia:
- Também eu tive noutro tempo a obcecação de buscar apressado a montanha. A Luz de cima fascinava-me e rompi todos os laços que me retinham em baixo, encetando dificilmente a jornada.
A principio, feri-me nos espinhos pontiagudos da senda, experimentei atrozes desenganos...
Consegui, porém, vencer os óbices imediatos e ganhei, jubiloso, pequenina eminência. Em me voltando, todavia, espantou-me a visão terrífica do vale: o sofrimento e a ignorância dominavam em plena treva. Desencarnados e encarnados lutavam uns contra os outros, em combates gigantescos, disputando gratificações dos sentidos animalizados. O ódio criava moléstias repugnantes, o egoísmo abafava impulsos nobres, a vaidade operava horrenda cegueira... Cheguei a sentir-me feliz, diante da posição que me distanciava de tamanhas angústias. Contudo, quando mais me vangloriava, dentro de mim mesmo, embalado na expectativa de atravessar mais altos cumes, eis que, certa noite, notei que o vale se represava de fulgente luz.
- Que sol misericordioso visitava o antro sombrio da dor? Seres angélicos desciam, céleres, de radiosos pináculos, acorrendo às zonas mais baixas, obedecendo ao poder de atração da claridade bendita.
- Que acontecera? — perguntei ousadamente, interpelando um dos áulicos celestiais. — “O Senhor Jesus visita hoje os que erram nas trevas do mundo, libertando consciências escravizadas". Nem mais uma palavra. O mensageiro do Plano Divino não podia conceder-me mais tempo. Urgia descer para colaborar com o Mestre do Amor, diminuindo os desastres das quedas morais, amenizando padecimentos, pensando feridas, secando lágrimas atenuando o mal, e, sobretudo, abrindo horizontes novos à Ciência e à Religião, de modo a desfazer a multimilenária noite da ignorância.
Novamente sozinho, na peregrinação para o Alto, reconsiderei a atitude que me fizera impaciente.
- Em verdade, para onde marchava meu Espírito, despreocupado da imensa família humana, junto da qual haurira minhas mais ricas aquisições para a vida imortal?
- porque enojar-me, ante o vale, se o próprio Jesus, que me centralizava as aspirações, trabalhava, solícito, para que a Luz de Cima penetrasse as entranhas da Terra?
- não praticava eu o crime execrável da usura, olvidando aqueles entre os quais adquirira o roteiro destinado à minha própria ascensão?
- como subir sozinho, organizando um céu exclusivo para minhalma, lastimàvelmente abstraído dos valores da cooperação que o mundo me prodigalizava com generosidade e abundância?
Mostrava-se o Instrutor intensamente comovido.
— Detive-me, então — continuou — e voltei. Efetivamente, o caminho vertical e purificador da superioridade é a sublime destinação de todos. O cume, bafejado de resplendor solar, é sempre um desafio benéfico aos que vagueiam sem rumo, na planície. O alto polariza, naturalmente, as supremas esperanças dos que ainda permanecem em baixo... Todavia, à medida que penetramos o domínio da altura, imprimem-se-nos na mente e no coração as leis sublimes de fraternidade e misericórdia. Os grandes orientadores da Humanidade não mediram a própria grandeza senão pela capacidade de regressar aos círculos da ignorância para exemplificarem o amor_e_a_sabedoria, a renúncia e o perdão aos semelhantes. É por esse motivo que necessitamos temperar todo impulso de elevação com o sal do entendimento, evitando a precipitação nos despenhadeiros do egoísmo e da vaidade fatais.
Metelo silenciou por instantes e, diante da comoção com que lhe acompanhávamos a palestra, retomou o verbo com outra inflexão de voz:
— Outrora, quando nos envolvíamos ainda nos fluidos da carne terrestre, supúnhamos com desacerto que a vaidade e o egoísmo somente poderiam vitimar os homens encarnados.
- A Teologia, não obstante o ministério respeitável que lhe está afeto, enclausurava-nos a mente em fantasiosas concepções do reino da verdade. Esperávamos um paraíso fácil de ser conquistado pela deficiência humana e temíamos um inferno difícil de regenerar-nos. Nossas ideias alusivas à morte confinavam-se a essas ridículas limitações. Hoje, porém, sabemos que, depois_do_túmulo, há simplesmente continuação da vida. Céu e inferno residem dentro de nós mesmos. A virtude e o defeito, a manifestação sublime e o impulso animal, o equilíbrio e a desarmonia, o esforço de elevação e a probabilidade da queda perseveram aqui, após o trânsito do sepulcro, compelindo-nos à serenidade e à prudência. Não nos encontramos senão em outro campo de matéria variada, noutros domínios vibratórios do próprio Planeta em cuja Crosta tivemos experiências quase inumeráveis.
Como não equilibrar, portanto, o coração no exercício efetivo da solidariedade?
- Logicamente não exortamos ninguém a novos mergulhos no lodo antigo, não desejamos que os companheiros previdentes regressem à posição de filhos pródigos, distanciados voluntariamente do Eterno Pai, nem pretendemos interromper a marcha laboriosa dos servidores de boa vontade, a caminho dos Cimos da Vida.
Fez o orador uma pausa mais longa e continuou:
— De nossos amigos encarnados não podemos esperar, por enquanto, concurso maior e mais eficiente nesse sentido. Presos nas grades sensoriais, progridem lentamente na aprendizagem das leis que regem a matéria e a energia. Quando convidados a visitar nossos círculos de edificação, fora da instrumentalidade_fisiológica, regressam ao corpo assombrados pelas visões rápidas que lhes foi possível arquivar e, em transmitindo suas lembranças aos contemporâneos, operam a coloração da água simples e pura da verdade com os seus “pontos de vista” e predileções pessoais no terreno da Ciência, da Filosofia e da Religião.
- Bernardin de Saint-Pierre, o romancista trazido por amigos a regiões_vizinhas_da_Crosta_Planetária, volta ao seu meio de ação e traça aspectos que asseverou pertencerem ao Planeta Vênus.
- Huyghens, o astrônomo, recebe mentalmente algum noticiário de nossas esferas de luta e ensaia teorias referentes à vida em outros mundos, afirmando que os processos biológicos nos orbes distantes são absolutamente análogos aos da Crosta da Terra.
- Teresa d’Avila, a religiosa santificada, transporta-se à paisagem de nosso plano onde se lamentam almas_sofredoras, e torna ao corpo carnal, descrevendo o inferno para os seus ouvintes e leitores.
- Swedenborg, o grande médium, percorre alguns trechos de nossas zonas de ação e pinta os costumes das “habitações astrais” como melhor lhe parece, imprimindo às narrações os fortes característicos de suas concepçoes individuais.
Quase todos os que vieram momentâneamente ao nosso campo de trabalho voltam ao esforço humano, exibindo a experiência de que foram objeto, pincelando-a com a tinta de suas inclinações e estados psíquicos. Porque se encontram fundamente arraigados ao “chão inferior” do próprio “eu”, acreditam enxergar outros mundos em situações iguais à da Terra, nosso maravilhoso templo, cujas dependências não se restringem à Esfera da Crosta sobre a qual os homens de carne pousam os pés. A Terra é também nossa grande mãe, cujos braços acolhedores se estendem pelo espaço além, ofertando-nos outros campos de aprimoramento e redenção.
Modificando a inflexão de voz, prosseguiu:
— As criaturas, porém, atravessam breve período de existência no mundo carnal.
- A maioria demora-se nas estações_expiatórias_do_resgate_difícil e confunde-se nas vibrações perturbadoras do sofrimento e do medo.
- Fazem da morte uma deusa sinistra.
- Apresentam o fenômeno natural da renovação com as mais negras cores.
- Agarradas às sensações do dia que passa, ignoram como dilatar a esperança e transformam a separação provisória numa terrível noite de amarguroso adeus.
- Vitimas da ignorância em que se comprazem, internam-se em florestas de sombras, onde perdem toda a paz, convertendo-se em presas delirantes dos infernos de horror, criados por elas mesmas nos desvairamentos passionais.
Como esperar delas a colaboração precisa, com a extensão desejável, se, pela indiferença para com os próprios destinos, mergulham-se diariamente nos rios de treva, desencanto e pavor? Unamo-nos portanto, auxiliando-as, segundo os preceitos evangélicos, descortinando-lhes novos horizontes e aclarando-lhes os caminhos evolutivos.
De olhos fulgurantes e neblinados de lágrimas, pela evocação talvez de quadros das esferas sombrias, que não nos eram dado conhecer, Metelo manteve-se longos instantes em silêncio, voltando a dizer em tom de súplica:
— Recordemos o Divino_Mestre e não desdenhemos a honra de servir, não de acordo com os nossos caprichos pessoais, porém de conformidade com os seus desígnios e suas leis. Campos imensuráveis de trabalho aguardam-nos a cooperação fraterna e a semeadura do bem produzirá nossa felicidade sem fim!...
...
Diante dum quadro extremamente doloroso, exclamou em voz firme:
— Muitos de vós sabeis que tenho nesses centros expiatórios os que me foram pais bem-amados na derradeira experiência vivida na carne, prisioneiros ainda de torturantes recordações; no entanto, crede, não nos move qualquer propósito egoístico nas tarefas de auxílio, porque temos aprendido com o Senhor que a nossa família se encontra em toda parte.
[40 - páginas 16/22] - André Luiz |