
O dever (Dever moral)
O dever é a obrigação moral, diante de si mesmo
em primeiro lugar, e, depois, dos outros.
O dever é a lei da
vida; ele se encontra nos mínimos detalhes e também nos
atos mais elevados.
Quero falar aqui apenas do dever moral,
e não do que as profissões impõem.
O dever é muito difícil de ser cumprido na ordem
dos sentimentos, porque se encontra em antagonismo com
as seduções do interesse e do coração.
Suas vitórias não
têm testemunhas e suas derrotas não têm repressão.
O dever íntimo do homem depende do seu livre-arbítrio; o aguilhão(114) da consciência, esta guardiã da integridade de caráter, o adverte e o sustenta, mas freqüentemente se mostra
impotente diante dos falsos argumentos gerados pela paixão.
O dever do coração, quando fielmente observado, eleva o homem; mas como determinar esse dever?
Onde
começa? Onde termina?
O dever começa precisamente no
ponto em que ameaçais a felicidade ou a tranqüilidade do
vosso próximo, e termina no limite que não desejaríeis ver
transposto por ninguém em relação a vós mesmos.
Deus criou todos os homens iguais para a dor; pequenos
ou grandes, ignorantes ou instruídos, sofrem pelas
mesmas causas, para que cada um julgue judiciosamente o
mal que pode fazer.
O mesmo critério não existe em relação ao bem, infinitamente mais variado nas suas expressões.
A igualdade diante da dor é uma sublime previsão
de Deus, que deseja que seus filhos, instruídos pela experiência comum, não cometam o mal, alegando a ignorância
dos seus efeitos.
O dever é o resumo prático de todas as especulações
morais; é uma bravura da alma que enfrenta as angústias da
luta.
É austero e dócil; pronto a dobrar-se às mais diversas
complicações, permanece inflexível diante das suas tentações.
O homem que cumpre o seu dever ama a Deus mais
do que às criaturas, e ama as criaturas mais do que a si
mesmo.
Ele é, ao mesmo tempo, juiz e escravo na sua própria causa.
O dever é o mais belo adorno da razão; ele nasce
dela, como o filho nasce da sua mãe.
O homem deve amar o
dever, não porque ele o preserve dos males da vida, aos quais
a humanidade não pode subtrair-se, mas porque ele dá à alma
o vigor necessário ao seu desenvolvimento.
O dever cresce e irradia, sob uma forma mais elevada,
em cada uma das etapas superiores da humanidade.
A
obrigação moral da criatura para com Deus jamais cessa; ela
deve refletir as virtudes do Eterno, que não aceita um esboço imperfeito, porque deseja que a beleza de sua obra resplandeça diante dele.
(Lázaro. Paris, 1863.)
O Evangelho Segundo o Espiritismo
Capítulo VII - Item 7
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(114) Aguilhão: ponta de ferro, ferrão, colocada em uma das extremidades
da aguilhada: vara comprida com que se instiga o boi, cravandolhe
o aguilhão, para fazê-lo caminhar na direção certa.
O Espírito Lázaro, ao usar a expressão o aguilhão da consciência
, nos mostra como somos ajudados todas as vezes em que, em nosso
íntimo, ressoa uma voz dando-nos a idéia de resistir ao mal ou mostrando as
nossas imperfeições. Nem sempre, porém, damos a essa voz, ou seja, à picada
do aguilhão consciencial, a devida importância, esquecendo-nos de
que a lei de Deus o supremo código de conduta está contida em nossa
própria consciência, conforme os espíritos nos afirmam na questão 621-a) de
O Livro dos Espíritos. (N.T.)
Hoje vos diremos o dever do homem no período da prova.
O homem, como entidade espiritual responsável, tem deveres a cumprir,...
Os vossos guias instrutores esboçaram suficientemente o código moral que diz respeito ao espírito do homem, mas, ao lado e além do que puderam ensinar, se estende um vasto domínio.
A influência do espírito sobre o espírito, apenas reconhecida entre os homens, é ...
Resumamos:
- Pela palavra progresso ou conhecimento de si mesmo, compreendemos o dever do homem, entidade espiritual, que deve fazer um constante esforço para ativar o seu desenvolvimento interior.
- O dever do homem, ser intelectivo e racional, define-se pela palavra, cultura ou pesquisa dos conhecimentos, não em uma única direção, mas em todas; não por interesse material, mas para estimular faculdades que, destinadas a perpetuar-se, devem aumentar incessantemente.
- Enfim, diante do seu espírito, oculto sob_uma_forma de_carne, o dever do homem é a Pureza, pois Progresso, Cultura, Pureza, totalizam no conjunto os deveres do homem para consigo mesmo, considerado como ser espiritual, intelectivo e material. (Ver: Amor e Conhecimento)
Quanto ao dever do homem para com a raça de que é ele unidade, a comunhão de que é membro, experimentamos cristalizar em uma palavra a ideia central que lhe é o motor.
- Caridade ou Tolerância para com as divergências de opinião, caridosa apreciação de atos e palavras duvidosas, benevolência nas relações, ardente desejo de ajudar_o_seu_próximo, sem aspirar a recompensas
- cortesia e doçura de conduta
- paciência diante da injustiça ou interpretação malévola
- integridade nos negócios ou projetos, aliada a uma indulgente e afetuosa bondade
- simpatia perante os sofrimentos de outrem
- misericórdia, piedade e ternura de coração
- respeito à autoridade em sua esfera
- respeito aos direitos do fraco
- essas qualidades e outras que tais, do mesmo gênero, que são a verdadeira essência do caráter do Cristo, exprimimo-las nós pela palavra Caridade ou Amor ativo.
Quanto à relação entre o homem e o seu Deus, é a de um ser que, colocado em um dos mais baixos graus de existência, aproxima-se da Fonte de Luz incriada, do Grande Autor, do Pai de tudo.
A sua alteza é definida por estas palavras da Bíblia: “ Os anjos ocultam a face com as asas quando se inclinam diante do seu trono.”
Essa figura simboliza a veneração e a adoração que deve possuir o espírito do homem. Veneração e temor, mas sem terror.
Adoração, Amor, tais são as qualidades que devem inspirar o espírito em sua relação com Deus.
Este vago esboço dos deveres humanos pode ser completado, mas o homem, observando-os, fica em estado de realizar grandes progressos, de ser um bom cidadão, podendo servir de modelo em qualquer situação da vida.
Não falamos do dever exterior, cuja importância não conhecemos.
Por isso, durante todo o tempo em que o homem é um ser físico, os atos físicos ocupam-lhe grande lugar; não receamos que se deixe de ligar a isso uma importância suficiente, e eis por que não nos apoiamos sobre esse lado da questão.
Ocupamo-nos sobretudo com atrair-vos a atenção sobre o vosso verdadeiro eu, e insistimos para que considereis tudo o que fazeis como a manifestação exterior de um espírito interior que determinará a vossa futura condição de existência ao deixardes esse ciclo.
Quando reconhecerdes o espírito, que é alma de tudo, que é a realidade e a vida ocultas sob a Natureza e a Humanidade, e que se manifesta sob as formas mais diversas, estareis inspirado pela verdadeira sabedoria.
Temos agora de tratar dos resultados que derivam da observância ou da não aceitação do dever do homem.
Aquele que o preenche conforme a sua capacidade com o honesto, sincero e único desejo de o executar o melhor possível, é recompensado em progresso.
- Dizemos progresso, porque o homem é inclinado a não reparar que o seu espírito tende a encontrar no progresso a mais real felicidade.
- A alma pura goza apenas um contentamento relativo, não pode descansar no que é passado, onde só vê um estimulante exortando-a a caminhar; vai para o futuro, na esperança e na expectativa de um desenvolvimento sempre mais extenso.
- A alma que adormece satisfeita, imaginando atingir a meta, estaria em perigo de retrogradar.
- A verdadeira atitude do espírito é a do esforço ardente e ascensional, e a sua felicidade está na progressão perpétua.
Isto se aplica não somente ao fragmento da existência a que chamais vida, mas à totalidade do ser.
Sim, as ações efetuadas durante a encarnação têm a sua continuidade na vida do espaço; a barreira a que chamais morte nada limita, pois, longe disso, a condição do Espírito, ao recomeçar a sua vida real, é determinada pelos seus atos corpóreos.
O Espírito que foi indolente ou impuro gravita necessariamente em esfera congênere e começa o período de provas, que têm por objeto purificá-lo dos hábitos adquiridos durante a sua vida terrestre, inspirar-lhe a vergonha e o remorso, que despertam nele o desejo de se elevar; isso é o castigo da transgressão e não um julgamento arbitrário; é a inevitável sentença que condena ao remorso, ao arrependimento – retribuição do pecado consciente; é a vara que castiga, não porém aplicada por uma divindade vingadora; é a lei de um Pai terno que mostra ao filho a sua falta e o modo como repará-la.
A recompensa não é um repouso inativo, monótono ou sensual, porém a consciência do dever cumprido, do progresso realizado, da capacidade acrescida para progredir ainda, do amor de Deus e do homem, aumentado pela verdade servida e conservada.
É a recompensa do espírito, vinda como o descanso depois do labor, como a água ao sequioso, como a sensação de alegria ao viajante ao avistar a casa; é gratificação penosamente ganha.
O aguilhão impelindo a outros progressos.
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Médium: William Stainton Moses
(1839 - 1892)
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