Imortalidade da alma: “Creio que a salvação da alma não precisa ser
discutida: pois quase todos os hereges, independentemente da forma como a
aceitam, pelo menos não a negam“. 5
A ressurreição é do “corpo, inundado de sangue, constituído de
ossos, entrelaçado por nervos, entremeado por veias (uma carne), que (...) nasceu e (...) morreu,
sem dúvida alguma humano”. 6
Tertuliano pensa que a ideia
do sofrimento,
da morte e da ressurreição
de Cristo chocará os leitores; insiste que é preciso crer, porque
isso é absurdo!”. 7
(Ver:Ressurreição
da carne)
No entanto, certos cristãos a quem chama de hereges discordam.
Sem negar
a ressurreição, rejeitam a interpretação literal; alguns acham
“extremamente revoltante, repugnante e impossível”.
Alguns gnósticos chamaram a concepção literal da ressurreição
de “fé dos tolos”.36
A ressurreição,
insistiram, não era um evento único no passado:
ao
contrário, simbolizava como a presença de Cristo poderia ser
vivenciada no presente.
O que
importava não era a Visão literal, e sim a espiritual.37
Observaram que muitos dos que testemunharam os acontecimentos da vida de Jesus continuaram cegos a seu
significado.
Os próprios discípulos com freqüência entendiam mal o que
Jesus dizia:
(Esta afirmação está de conformidade com o que Jesus diz nasCartas de Cristo)
Os que anunciaram o retorno físico à vida de
seu mestre morto apreenderam de forma equivocada uma verdade
espiritual por um acontecimento real.38
Mas o verdadeiro discípulo pode nunca ter visto
o Jesus terrestre, por ter nascido na época errada, como disse Paulo
de si mesmo.39
Entretanto, essa deficiência física pode tornar-se uma vantagem
espiritual: essas pessoas, como Paulo, podem encontrar Cristo primeiro no
nível da vivência
interna.
Como é experimentada a presença de Cristo?
O
autor do Evangelho de Maria, um dos poucos textos
gnósticos descobertos antes dos textos de Nag-Hammadi, interpreta
as aparições da ressurreição como visões recebidas em sonhos ou
transes extáticos.
Esse evangelho
gnóstico relembra a tradição registrada em Marcos e João,
de que Maria Madalena foi a primeira a ver o Cristo ressuscitado.40
João diz que Maria viu Jesus na manhã de sua ressurreição
e que ele apareceu aos outros discípulos apenas depois, na tarde do
mesmo dia.41
Segundo o Evangelho
de Maria, Maria Madalena, tendo uma visão do Senhor,
perguntou-lhe: “Como aquele que vê uma aparição a enxerga?
[Através] da alma, [ou] através do espírito?”42
Ele respondeu que os
visionários percebem através da mente.
O Apocahjse
de Pedro, descoberto em Nag Harnmadi, conta como Pedro, em transe
profundo, viu Cristo, que lhe explicou: “Sou o espírito
intelectual,
repleto da luz irradiante.”43
As narrativas gnósticas, quase sempre, mencionam como aqueles que
as recebem respondem à presença de Cristo com emoções intensas -
terror, reverência, sofrimento e alegria.
Contudo, os escritores gnósticos não rejeitam as visões como
fantasias ou alucinações.
Respeitam - até reverenciam - essas
experiências pelas quais a intuição espiritual revela
discernimento sobre a natureza da realidade.
Um professor gnóstico,
cujo Tratado sobre a Ressurreição, uma carta a Reghinos,
seu aluno, foi encontrado em Nag Hammadi, diz:
“Não
suponha que a ressurreição seja uma aparição
[phantasia; literalmente,
‘fantasia’]. Não é uma aparição; mas sim algo
real.
Em
vez disso”, continua, “é mais apropriado dizer que o
mundo é uma aparição e não a ressurreição.” 44
Como
um mestre budista, o professor de Reghinos prossegue com
a explicação de que a experiência humana comum é a morte
espiritual. Entretanto, a ressurreição é o momento da iluminação:
“É (...) a revelação do que na verdade existe (...) é a
mudança (metabolë
-mudança, transição)
para o novo.” 45
Quem quer que compreenda
isso se torna vivo espiritualmente. Isto significa, ele declara,
que você pode “ressurgir dos mortos” imediatamente:
“Seria o verdadeiro eu ou apenas uma adulteração? (...)
Por
que não examina seu próprio eu e vê que ressuscitou?” 46
(Ver:Reencarnação)
Um
outro texto de Nag Hammadi, o Evangelho
de Filipe,
expressa a mesma visão, ridicularizando cristãos
ignorantes que aceitam a versão
literal da ressurreição.
“Aqueles
que dizem que morrerão primeiro e depois ressuscitarão estão
equivocados.”47
Devem,
ao contrário, “receber a ressurreição enquanto estão
vivos”.
O autor diz, de modo irônico, que em certo
sentido, então, "é necessário se elevar ‘nesta
carne’, já que tudo existe nela!”.48
O interesse desses gnósticos
está na possibilidade de encontrar o Cristo ressuscitado no presente, 49
mais que nos eventos passados atribuídos ao “Jesus histórico”.
____________
36.
Orígenes, Commentarium
in I
Corinthians,
em Journal of Theological
Studies 10 (1909),
46-47.
37.
Tertuliano, De
Resurrectione
Carnis,
19-27.
38.
Irineu (Bispo
de Lyon), AH 1.30.13.
39.
I
Coríntios 15:8.
40.
Marcos 16:9.
41.
João 20:11-19.
42.
Evangelho de Maria 10.17-21,
em NITIL 472.
43.
Apocalipse
de Pedro 83.8-10, em NHL 344. Para discussão das tradições gnósticas
de Pedro, ver P. Perkins, “Peter in Ginostic Revelations”, em Proceedings
ofSBL:
1974 Seminar
Papers II
(Washington, 1974), 1-13.
44.
Tratado da Ressurreição 48.10-16,
em NHL 52-53. Ver M. L. Peel, The
Epistle to Rheginos;
A Valentinian
Letter
ou the Resurrection:
Introduction,
Translation,
Analysis,
and
Exposition (L on dres/Filadélfia,
1969); B. Layron, The
Gnostic
Treatise
on
Resurrection
frorn Nag Hammadi. Edited, with Translation and Commentary (Missoula,
1979). A
tradução das citações do Tratado segue a de Layton, como mencionado nos Agradecimentos.
45.
Tratado sobre a Ressurreição 48:34-38,
em NHL 53.
46.
Jbid., 47.18-49.24,
em NHL 53.
47.
Evangelho de Filipe
73.1-3. em NHL 144.
48.
Jbid., 57:19-20, em
NHL 135.
49.
Consultar H. Koester, “One Jesus and Four Primitive Gospels”,
em J. M. Rohinson e H. Koester, Trajectories
through Early Christianity
(Filadélfia, 1971), 158-204, e Rohinson, “The Johannine
Trajectory’, ibid., 232-268.
O Apócrifo de João, por
exemplo, começa quando João diz como partiu após a crucificação
com “grande pesar":Imediatamente (...)[os céus se abriram, e tudo] a criação [que está] abaixo do céu
brilhou, e [o mundo] tremeu.
[Eu estava com medo e] vi na luz [uma
criança](...)enquanto eu
olhava, ela se tornou um ancião.
Então, ele [mudou sua] forma outra
vez, tornando-se um servo eu vi uma [imagem] com múltiplas formas na
luz... 64
Enquanto olhava maravilhado, a presença falou:João, Jo[ã]o. por que não crê, por que tem medo?
Essa
forma não lhe é estranha,
é?
Não tenha medo! Sou
aquele que [está com você] sempre (...)[Vim para ensinar-] lhe o que é[e o que era] e o que virá [a ser] (...)" 65
A Carta de Pedro a Filipe, descoberta em Nag-Hammadi, relata que após a morte de
Jesus os discípulos estavam rezando no Monte das Oliveiras quando
surgiu uma grande luz, para que as montanhas brilhassem diante de sua
aparição.
E uma voz clamou a eles dizendo: “Ouçam...
Eu sou Jesus Cristo,
aquele que estará para sempre convosco." 66
Então, os discípulos perguntaram-lhe sobre os segredos do universo
e “a voz veio a eles através da luz” para responderlhes.
A Sabedoria
de Jesus Cristo narra uma história semelhante, na qual, mais uma vez, os
discípulos estão reunidos em uma montanha após a morte de Jesus,
quando “lhes apareceu o Redentor, não em sua forma anterior, mas
como espírito invisível.
Entretanto, sua aparência assemelhava-se
um grande anjo de luz”.
Ao responder ao seu espanto e terror,
sorriu, e ofereceu-se para ensinar-lhes os “segredos [mysteria;
‘mistérios´, literalmente] do plano sagrado” do universo e
seus destinos.67
Mas
o contraste com a concepção ortodoxa é imenso. 68
Nela, Jesus não apareceu na
forma humana, comum, que os discípulos reconheceram e, com certeza,
não na forma corpórea.
Ele surgiu como uma presença luminosa e a voz saía da luz, ou se
transformou em múltiplas formas.
O Evangelho_de_Filipe retorna o mesmo tema:Jesus pegou a todos de surpresa, pois não se revelou da
forma [que] era, mas da maneira que [eles seriam] capazes de vê-lo.
Revelou a si mesmo para [todos.
Revelou a si mesmo aos grandes como
grande (...) (e) pequeno aos
pequenos. 69
Aos discípulos imaturos,
apareceu como uma criança; aos maduros, como um ancião, símbolo da
sabedoria. Como sublinha o professor gnóstico Teódoto,
“cada um reconhece o Senhor à sua própria maneira, nem todas são
semelhantes". 70
____________
64.
Apócrifo
de João 1.30-2.7, em NHL 99.
65.
Ibid.,
2.9-18, em NHL 99.
66.
Carta
de
Pedro
a
Filipe
1,34.10-18, em NHL 395. Para análise, ver M, Meyer, The Letter of Peter to Philipe NHL VIII, 2:
Text,
Translation, and Commentary (Claremont,1979).
67.
A Sophia de Jesus Cristo
91.8-13, em NHL 207-208.
68.
Para discussão, ver H.-C. Puech, “Gnostic Gospels and
Related Documents’, em New Testament
Apocrypha
I. 231-362.
Os autores_gnósticos quase sempre atribuem sua tradição a pessoas externas
ao círculo dos 12 - Paulo, Maria Madalena e Tiago.
Alguns insistem em
que o grupo dos 12 - inclusive Pedro - não recebeu a gnosispor testemunhar primeiro a ressurreição de Cristo.
Outro grupo de gnósticos,
conhecidos como sethianos, porque se diziam filhos de Seth,
o terceiro filho de Adão e Eva, diz que os discípulos, iludidos por
“um grande erro”, imaginaram que Cristo ressurgiu, em forma carnal,
dos mortos.
Mas o Gristo ressuscitado apareceu a “poucos discípulos”,
que sabia capazes de compreender
“tão grandes mistérios", 86 e ensinou-lhes a
com preender aressurreição em
termos espirituais e não na corporeidade.
Outros gnósticos explicam que
determinados membros dos 12 receberam depois visões e revelações
especiais, atingindo assim a iluminação.
O Apocalipse de Pedro descreve como ele, em transe_profundo, experimenta a presença de Cristo, que abre seus
olhos para a visão_espiritual: [O
Salvador] me disse (...)“(...) coloque suas mãos sobre (seus) olhos
(...) e diga o que vê!
Mas quando fiz isso, não vi nada.
Eu disse:
“Ninguém vê (dessa forma).
E, mais uma vez, ele falou: Tente outra
vez."
E senti medo e júbilo, pois vi uma nova luz, mais forte que a
luz do dia.
Então, ela desceu até o Salvador e contei a ele sobre as
coisas que vi. 88
__________ 86
- Irineu, AH 1.30.13.
88
- Apocalipse de Pedro 72.10-28, em NHL. 340-341