Doutrinação

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        A cooperação de um espiritista convicto na doutrinação do Espírito perturbado vale muito e faz sempre grande bem, principalmente ao desencarnado; mas a cura completa do médium (obsidiado) não depende tão-só desse recurso, porque, se é fácil, às vezes, o esclarecimento da entidade infeliz e sofredora, a doutrinação_do_encarnado é a mais difícil de todas, visto requisitar os valores do seu sentimento e da sua boa-vontade, sem o que a cura psíquica se torna inexeqüível.

 

[41a - página 219] - Emmanuel - 1940

      ... O  Ministro ouviu-me, tolerante, e redargüiu:
        — Nem sempre doutrinar será transformar. Efetivamente, guardo alguma força magnética suficientemente desenvolvida, capaz de operar sobre a mente de nossos companheiros em recuperação; no entanto, ainda não disponho de sentimento sublimado, suscetível de garantir a renovação da alma. Sem dúvida, dentro de minhas limitações, estou habilitado a falar à inteligência, mas não me sinto à altura de redimir corações. Para esse fim, para decifrar os complicados labirintos do sofrimento moral, é imprescindível haver atingido mais elevados degraus na humana compreensão...

[4 - páginas 176] - André Luiz

        A Doutrinação é a moderna técnica espírita de afastar os espíritos_obsessores através do esclarecimento doutrinário.  Essa técnica é moderna e foi criada e desenvolvida por Allan_Kardec para substituir as práticas bárbaras do Exorcismo, largamente usada na Antigüidade, tanto na medicina como nas religiões. O conceito do doente mental como possessão demoníaca, gerou a ideia de espancar o doente para retirar o Demônio do seu corpo. 

  • Nos hospitais a cura se processava através de espancamentos diários. 

  • Nas Religiões recorria-se a métodos de expulsão por meio de preces, objetos sagrados como crucifixos, relíquias, rosários e terços, medalhas, aspersão de água benta, ameaças e xingos, queima de incensos e outros ingredientes, pancadas e torturas. 

        As formas de exorcismo mais conhecidas entre nós são a judaica e a católica: 

  • A judaica mais racional, pois nela se empregavam também o apelo à razão do Dibuk, considerado como espírito demoníaco ou alma_penada. A tradução da palavra hebraica Dibuk, que nos parece mais acertada é a de alma penada, pois os judeus reconheciam e identificavam o espírito obsessor como espírito humano de pessoa morta que se vingava do obsedado ou cobrava débitos dele e da família. 

  • No exorcismo católico prevaleceu até hoje a ideia de possessão demoníaca. 

        As pesquisas espíritas, do século passado, levaram Kardec a instituir e praticar intensivamente a doutrinação como forma persuasiva de esclarecimento do obsessor e do obsedado, através de sessões de desobsessão. Ambos necessitam de esclarecimento evangélico para superarem os conflitos do passado. Afastada a ideia terrorista do Diabo, o obsessor e obsedado são tratados com amor e compreensão, como criaturas humanas e não como algoz satânico e vítima inocente. A doutrinação espírita humanizou e cristianizou o tratamento das doenças mentais e psíquicas, influindo nos novos rumos que a Medicina tomava nesse sentido. Alguns espíritas atuais pretendem suprimir a doutrinação, alegando que esta é realizada com mais eficiência pelos Espíritos_bons no plano_espiritual. Essa é uma prova de ignorância generalizada da Doutrina no próprio meio espírita, pois nela tudo se define em termos de relação e evolução. Os espíritos sofredores, que são os obsessores, permanecem mais ligados à Terra e portanto à matéria. Dessa maneira, os Espíritos Benevolentes muitas vezes se manifestam nas sessões de desobsessão e servem-se dos médiuns para poderem comunicar-se com os obsessores. Apegados à matéria e à vida terrena, os obsessores necessitam de sentir-se seguros no meio mediúnico, envolvidos nos fluidos e emanações ectoplásmicas da sessão, para poderem conversar de maneira proveitosa com os Espíritos esclarecedores. Basta esse fato, comum nas sessões bem orientadas, para mostrar que a doutrinação humana dos espíritos desencarnados é uma necessidade.

        Pensemos um pouco no que ficou dito sobre relação e evolução. Os planos_espirituais são superpostos. A partir da Terra, constituem as chamadas esferas da tradição espiritualista européia, segundo o esquema da Escala_Espírita ( Livro dos Espíritos) como regiões destinadas aos vários graus ou ordens dos espíritos. Essas esferas ou planos espirituais são mundos que se elevam ao infinito. Quanto mais elevado o mundo, mais distanciado está do nosso mundo carnal. A doutrinação existe em todos os planos, mas o trabalho mais rude e pesado é o que se processa em nosso mundo, onde os espíritos dos mundos imediatamente superiores vêm colaborar conosco, ajudar-nos e orientar-nos no trabalho doutrinário. Orgulhoso e inútil, e até mesmo prejudicial, será o doutrinador que se julgar capaz de doutrinar por si mesmo. Sua eficiência depende sempre de sua humildade, que lhe permite compreender a necessidade de ser auxiliado pelos espíritos bons. O doutrinador que não compreende esse princípio precisa de doutrinação e esclarecimento, para alijar de seu espírito a vaidade e a pretensão. Só pode realmente doutrinar espíritos quem tiver amor e humildade.

        Mas é importante não confundirmos humildade com atitudes piegas, com melosidade. Muitas vezes a doutrinação exige atitudes enérgicas, não ofensivas ou agressivas, mas firmes e imperiosas. É o momento em que o doutrinador, firmado em sua humildade natural – decorrente de consciência que tem das sua limitações humanas – trata o obsessor com autoridade moral, a única autoridade que podemos ter sobre os espíritos inferiores. Esses espíritos sentem a nossa autoridade e se submetem a ela, em virtude da força moral de que dispusemos. Essa autoridade só a conseguimos através de uma vivência digna no mundo, sendo sempre corretos em nossas intenções e em nossos atos, em todos os sentidos. As nossas falhas morais não combatidas, não controladas, diminuem a nossa autoridade sobre os obsessores. Isso nos mostra o que é a moral: poder espiritual que nasce da retidão do espírito. Não se trata da moral convencional, das regras da moral social, mas da moral individual, íntima e profunda, que realiza a integração espiritual do ser voltado para o bem e a verdade.

        Mas essa integração não se consegue com sistemas ou processos artificiais, com reformas íntimas impostas de fora para dentro como geralmente se pensa. Existe a moral exógena, que nos é imposta de fora pelas conveniências da convivência humana. Essa moral exógena, pelo simples fato de se fundar em interesses imediatos do homem e não do ser é a casa construída na areia segundo a parábola evangélica. A moral de que necessitamos é endógena, vem de dentro para fora, brota da compreensão real e profunda no sentimento da vida. É a moral espontânea, determinada por uma consciência esclarecida que não se rende aos interesse imediatistas da vida social. Este é um problema em que precisamos pensar, meditar a sério e a fundo para podermos adquirir a condição de doutrinar com eficiência, dando amor, compreensão e estímulo moral aos espíritos inferiores. O Espiritismo, como acentuou Kardec, é uma questão de fundo e não de forma.

        A doutrinação praticada com plena consciência desses princípios atinge o obsessor, o obsedado, os assistentes encarnados e desencarnado e particularmente ao próprio doutrinador, que se doutrina a si mesmo, doutrinado os outros. Note-se a importância e o alcance de uma doutrinação assim praticada. É ela a alavanca com que podemos deslocar a mente do charco de pensamentos e sentimentos inferiores, egoístas e maldosos em que se afundou. É , por isso mesmo, a alavanca com a qual podemos mover o mundo, como queria Arquimedes, para colocá-lo na órbita do Espírito. Para podermos usar essa alavanca a todos os instantes: 

  • no silêncio da nossa mente, 

  • na atividade incessante do nosso pensamento, 

  • na conversação séria ou até mesmo fútil, 

  • nas relações com o próximo, 

  • nas discussões dos mais variados problemas, 

  • na exposição dos princípios doutrinários aos que desejam ouvir-nos, 

  • numa carta, 

  • num bilhete, 

  • numa saudação social, etc... 

        Mas sempre com discrição, sem insistências perturbadoras, sem carranca e seriedade formal. O primeiro sintoma da contenção desse problema é a alegria que nos ilumina por dentro e se irradia ao nosso redor, contagiando os outros. Porque a vida é uma bênção e portanto é alegria e não tristeza, jovialidade e não carrancismo.

        Não estamos na vida para sofrer mas para aprender. Cada dificuldade que nos desafia é uma experiência de aprendizado. O sofrimento é conseqüência da nossa incompreensão da finalidade da vida. Desenvolvendo a razão no plano humano, o ser se envaidece com a sua capacidade de julgar e comete os erros da arrogância, da prepotência, da vaidade, da insolência. Julga-se mais dotado que os outros e com mais direitos que eles. Essa é a fonte de todos os males humanos. A doutrinação espírita, equilibrada, amorosa, modifica a nós mesmos e aos outros, abre as mentes para a percepção da realidade-real que nos escapa, quando nos apegamos à ilusão das nossas pretensões individuais, geralmente mesquinhas. Foi isso o que Jesus ensinou ao dizer: “Os que se apegam à sua vida perdê-la-ão, mas os que a perderam por amor a mim, esses a encontrarão”.

        A meditação sincera e desinteressada sobre estas coisas é o caminho da nossa libertação e da libertação dos outros. Só aquele que está livre pode libertar.

http://www.espirito.org.br/portal/publicacoes/herculano/opd-20.html 

José Herculano Pires

Ver também:

Crianças e Adolescentes

DESAPARECIDOS