106. A massagem magnética nada tem de comum com a massagem denominada médica. É
baseada sobre os princípios diferentes e produz efeitos opostos.
O movimento circulatório sanguíneo se opera em dois estágios bem determinados:
Esta última funciona sob a dependência absoluta do impulso arterial que, regulada pelos dilatadores e os constritores dos nervos vaso-motores, se acha, por sua vez, sob a dependência estreita do influxo nervoso do grande simpático. A distribuição da força motora em uma usina fornece-nos uma imagem patente deste funcionamento dos mecanismos vitais: vemos efetivamente a força motora, partindo de focos de produção, transmitir-se por meio de correias de transmissão às engrenagens que devem utilizá-la industrialmente. Assim se dá com a máquina humana: o grande simpático, verdadeiro foco produtor da força motora, transmite-a pelo sistema dos vaso-motores originados dele e que funciona inteiramente ao longo dos condutos arteriais à maneira dos órgãos industriais de transmissão, na rede periférica dos capilares onde se vêm engrenar a represa venosa, e é neste ponto de engrenagem da força nervosa sobre a rodagem viva, que começa a verdadeira função industrial do sangue. Impelida com energia, do coração aos capilares, em toda a extensão da rede arterial, pela enervação do grande simpático e dos nervos vaso-motores, o sangue, que chega de um só jato, é tomado novamente à saída dos capilares pela rede venosa, cujas válvulas, dispostas à maneira das válvulas de engrenagem, o impulsam de novo e lentamente para o coração. Assim, na máquina humana, é o impulso arterial que engendra o movimento venoso, do mesmo modo que na usina a força de transmissão imprime a marcha da engrenagem arterial.
O que se diria de um operário, que em lugar de servir-se da força reguladora de
transmissão para fazer trabalhar o seu instrumento lhe substituísse a irregularidade de
sua ação pessoal? 107. A massagem magnética compreende fricções, malaxações, pressões, percussões, atitudes e movimentos. 108. Nas imposições e passes feitos por cima das roupas e à distância, a ação magnética se exerce de maneira puramente dinâmica; porém, a toda a manipulação direta sobre a pele, se juntam ao efeito magnético dinâmico dois novos fatores: os efeitos calóricos e os efeitos mecânicos. No primeiro caso, a ação se dirige diretamente aos centros de motilidade e favorece as correntes centrífugas. No segundo caso, o contato da mão sobre a pele, influenciando as extremidades periféricas dos nervos sensitivos que vêm convergir por baixo da epiderme, faz a ação não atingir os centros de motilidade senão por um efeito reflexo que favorece as correntes centrípetas.
A combinação das ações puramente magnéticas e de massagem excita pois no organismo o duplo movimento alternativo das forças centrífugas e centrípetas, por meio do qual podem-se imprimir tão profundas modificações na economia. O metodista Cassius, que colocava a causa das febres nos centros viscerais, fundava a sua terapêutica sobre esta idéia de reações centrífugas e centrípetas.
O Dr. Nemand. de Berlim, desenvolveu magistralmente, sob o título de "Movimento
concêntrico e excêntrico" esta tese que serve de base aos seus processos terapêuticos.
Grandes espíritos procuraram em todos os tempos, nesta orientação, a solução do
problema terapêutico, não somente os médicos, como também os engenheiros e os
físicos, porque as leis que regem o mecanismo vital são as mesmas que as da física em
geral. Maupertuis, membro da Academia francesa, refere que um geômetra tinha
inventado, para favorecer os movimentos centrífugos e centrípetos do organismo, um
aparelho que apresentara à Academia; mas este aparelho, obrigando o paciente a certas
piruetas que excitaram o riso mofador da douta assembléia e principalmente dos
médicos que ali se achavam, só teve um êxito de troça. "Seria muito melhor que o
experimentassem !" Acrescenta Maupertuis. (Dally) Fricções 109. As fricções se distinguem em palmares e digitais, fricções longitudinais e rotatórias.110. As fricções palmares fazem-se com a mão aberta, e com uma impressão bem em cheio, ficando os dedos ligeiramente afastados sem contração nem rigidez. 111. As fricções digitais se fazem com a mão aberta, ficando os dedos ligeiramente afastados e um pouco curvados sem crispações nem rigidez, o punho erguido, para que só a ponta dos dedos se dirija sobre a pele. 112. As fricções longitudinais se fazem, ou com a mão aberta e em cheio, ou somente com a ponta dos dedos, inteiramente ao longo dos membros e do corpo; do ombro à extremidade da mão, do quadril ao joelho, do joelho à extremidade do pé, da nuca até abaixo dos rins, da cabeça aos pés, etc.
Estas fricções se fazem com muita lentidão; são precisos cerca de quinze segundos
para ir do ombro à extremidade do braço, ou do quadril ao joelho, um minuto para ir da
cabeça aos pés, e, ao contrário do que se pratica na massagem médica, onde as
fricções se fazem por um movimento de vaivém e indiferentemente de cima para baixo e
de baixo para cima, as fricções magnéticas, nunca é demais repeti-lo, são
invariavelmente descendentes, e a ação ascendente que caminha em sentido inverso
das correntes, é antimagnética.
Prospér Alpini, que viajou pelo Egito no ano de 1580, deixou uma obra muito
importante sobre a medicina dos egípcios. Trata das fricções, e diz que, no tratamento
dos fluxos disentéricos, os egípcios, depois de terem operado delicadamente fricções
circulares com a mão sobre a região dos hipocôndrios, introduziam um dedo no umbigo e
davam voltas ao dedo muitas vezes, imprimindo vibrações ao umbigo (digitunque pluriès
circumvertunt). Esta circunvolução umbilical foi em todos os tempos encarada como
soberana contra a disenteria. Em caso algum é necessário inflamar a epiderme ou ofender os tecidos subjacentes, e é preferível não empregar óleo, sabão, pomada, ou banha. O que é preciso evitar principalmente, é o emprego das substâncias mercuriais, arsenicais, iodadas ou canforadas, que embaraçam absolutamente a ação magnética pervertendo mais ou menos a sensibilidade e a receptividade das ramificações nervosas do derma. Numerosos fatos permitiram-me constatar a influência que exercem sobre a pele as fricções medicamentosas, mesmo as que se consideram ordinariamente como as mais inofensivas, o álcool canforado por exemplo.
Eis aqui um destes fatos: Eu tratava de uma paraplegia em um indivíduo, de 58 anos de idade. No fim de algumas sessões, movimentos autônomos se apresentaram espontaneamente; simples ações à distância feitas com 50 centímetros, e até mais metros separados do corpo, determinavam profundos abalos nos músculos e principalmente nos músculos da perna, os quais iam e vinham em todos os sentidos como se o paciente quisesse envernizar o soalho. Sentimos prazer com a aparição desta ginástica natural que nos anunciava o caminhar de migrações vitais, quando de repente, numa das sessões seguintes, sem causa aparente, o fenômeno cessou e tudo entrou na passiva inação dos primeiros dias; depois de todos esses grandes movimentos que nos maravilhavam, nem um só estremecimento nos músculos. Donde podia provir esta brusca interrupção? Tive em breve a explicação do enigma, interrogando o meu doente. Julgando proceder bem ou, pelo menos, que não pudesse demorar a ação magnética, ele friccionou vigorosamente as pernas com álcool canforado. Ora, esta ação, se bem que aparentemente inofensiva, subtraindo momentaneamente as ramificações nervosas do derma toda a receptividade magnética, produzira a parada do fenômeno; e se eu duvidasse um só instante deste fato, bastava a confirmação que me trouxe alguns dias depois o restabelecimento dos movimentos, quando se esgotou a ação anestesiante do álcool canforado. Poderia citar outros exemplos para corroborar este fato, mas ab uno disce omnes; somente acrescentarei que tive ocasião de constatar um fenômeno análogo, não mais sobre um corpo vivo, porém sobre um objeto inerte, o que imprime um novo interesse ao assunto. Malaxações 115. A malaxação é uma espécie de petrificação das regiões musculares feita com as duas mãos, sempre de cima para baixo, segundo o trajeto do músculo desde o seu ponto de inserção até ao de ligamento.
Não se deve empregar força nem aspereza nas malaxações, mas é preciso exercer
sobre os tecidos compressões brandas sucessivas, tendo as mãos bem abertas, de
modo que a ação compressiva venha antes da palma do que dos dedos, os quais,
distendendo-se e fechando-se alternativamente devem sempre conservar uma grande
delicadeza. Para malaxar o abdome, parte-se da região ilíaca esquerda, arrastando de cima para baixo os fluidos elásticos do cólon para o reto; executa-se depois a mesma manobra sobre a região ilíaca direita, em seguida sobre o cólon transverso e o intestino delgado.
A malaxação abdominal pode ser também feita circularmente, começando de baixo
para cima sobre o lado direito do abdome, seguindo depois transversalmente de um
hipocôndrio para outro, e finalmente de cima para baixo sobre o lado esquerdo, devendo
estar o corpo do paciente numa posição tal que as paredes abdominais se achem
inteiramente relaxadas. As malaxações eram muito empregadas contra as ankyloses das articulações na medicina grega, e o próprio Hipócrates referia-se a ela muitas vezes em seus escritos. "O médico, dizia ele, necessita saber muitas coisas; não deve ignorar que vantagem pode auferir das malaxações; elas produzem efeitos inteiramente opostos entre si: ou apertam as articulações frouxas, ou relaxam as articulações tensas; exporei num tratado especial o método de fazer malaxações e a sua utilidade." Infelizmente, ou este tratado não foi feito, ou perdeu-se; de qualquer maneira não chegou até nós. (Aubin Gauthier) Pressões 118. Apesar do cuidado que se deve ter de banir da massagem magnética toda a ação brutal ou violenta, há casos em que se deve exercer sobre certos pontos do corpo compressões para favorecerem uma ação curadora.As pressões se executam geralmente com os polegares, e se fazem na maioria dos casos sobre o trajeto das artérias, sobre as carótidas dos dois lados do pescoço, sobre a dobra do braço na região da sangria, sobre a artéria por baixo da articulação do joelho, sobre a artéria na dobra da virilha. Também se operam compressões por baixo das clavículas, sobre os ovários, sobre o grande nervo ciático, sobre o plexus lombar, sobre o umbigo. A compressão das carótidas consegue combater os acessos de cefalalgia[11] e enxaquecas, as convulsões e as nevralgias faciais. A compressão do nervo ciático e do plexus lombar debela as dores nevrálgicas dos rins, dos joelhos, dos pés e em geral das extremidades inferiores. A epistaxe[12] cede algumas vezes a um leve movimento de pressão na parte superior do nariz; é preciso sentar o doente com a cabeça levantada e passiva, segurar a parte superior do nariz com o polegar e o indicador e, depois de uma compressão de alguns minutos, imprimir a esta região do nariz um movimento bem acentuado de tremor ou vibração. Este gênero de compressão é aplicado também com êxito no coriza, principalmente em começo. Uma simples pressão de alguns minutos, seguida de insuflações quentes sobre a raiz do nariz, basta para suster um defluxo de cabeça em seu começo. Segundo a opinião do Dr. Frederico Hoffmann, quando se exerce uma pressão de cima para baixo sobre o nervo frênico, obtém-se a revivificação da ação do diafragma.
As compressões têm também uma ação muito notável nas crises epilépticas, e
principalmente para combater-lhes os prodromos. Basta algumas vezes comprimir
fortemente a barriga das pernas, a curva do braço ou a cavidade da clavícula, para deter
a aura. Percussões 119. As percussões são ainda um excelente meio mecânico para convergir os sucos nutritivos nos pontos onde parece que eles não mais voltam.A percussão praticada inteligentemente desperta os espíritos vitais, e os chama aos seus deveres e às suas funções, atraindo as correntes para a parte percutida. Poderíamos dar numerosos exemplos de migrações para as partes do corpo que por circunstâncias, têm de sofrer subitamente um esforço externo mais considerável. Eis aqui um que, pela freqüência, tornou-se vulgar e que bastará para a demonstração que queremos fazer: Quando não se tem grande hábito de andar a cavalo, e monta-se depois de um grande repouso, o choque e o atrito repetidos do selim desenvolvem nas partes musculosas em contato com ele um tal afluxo de vitalidade, que chegam a inflamar-se e mesmo a provocar escoriações. Ora, todo cavaleiro sabe perfeitamente que este inconveniente desagradável cessa mais radicalmente pela continuidade de um exercício prolongado do que por meio de repousos intermitentes, que não fazem às vezes senão prolongar indefinidamente as escoriações; é necessário, apesar da dor, perseverar num exercício de todos os dias, o qual, longe de aumentar o mal, acaba, ao contrário, extinguindo a sensibilidade das partes lesadas e trazendo sua imediata cicatrização. Não é, como se poderia acreditar, que a epiderme deixe de estar firme e endurecida; ela nada representa no fenômeno; conserva-se depois da cura tal como antes, delicada e flexível; é, porém, o afluxo dos espíritos vitais, anormalmente chamados a um exercício insólito nas partes em contato com o selim, que cessa de existir e acaba entrando a pouco e pouco na torrente circulatória. É um equilíbrio que se estabelece. Eis de que modo, mesmo fazendo logo exercício, não se é mais suscetível de ficar lesado quando se monta a cavalo diariamente; não se fica com a epiderme mais dura, porém o organismo, suficientemente equilibrado pelo hábito, já não deixa as correntes se dirigirem para a parte percutida.
Não se bate na palma das mãos de uma pessoa que tem um deliquio, como se se
quisesse chamar à periferia os espíritos vitais que refluem para os centros? Depois do emprego das imposições e dos passes magnéticos, a percussão é indubitavelmente o agente complementar mais seguro e mais inofensivo que permite remediar ao mesmo tempo dois vícios de constituição bem opostos na aparência, a obesidade e a magreza, combatendo a inércia das vísceras, o estado de inação e de estupor dos vasos absorventes, e favorecendo a nutrição dos tecidos. Nos casos de edemacia, as percussões dão tonicidade às funções e favorecem as assimilações: nos casos de obesidade forçam as eliminações e obrigam a economia a absorver as reservas. Os antigos, nossos mestres em muitas coisas, tinham acerca do dinamismo vital melhores idéias que nós. Partindo deste princípio que o duplo movimento de composição e de decomposição, que resume a vida na sua mais simples expressão, depende inteiramente do equilíbrio das forças vitais, atribuíam o empastamento dos tecidos ou sua edemacia uma só e mesma causa; a falta de equilíbrio destas forças, e, segundo eles, quer haja excedente ou déficit nas reservas, era sempre a assimilação (esta importante função do organismo encarregada de introduzir na torrente circulatória os produtos dissolvidos da digestão) que não se operava normalmente. A percussão tinha como principal objeto despertar por uma ação dinâmica a reação vital adormecida e ativar mecanicamente as funções de assimilação. Os antigos para percutirem, em vez de servirem-se da mão (o que é mais profícuo, por causa da ação magnética que desenvolve) empregaram dois pequenos instrumentos, tendo cada um seu uso particular: a palheta e o flagício. A palheta (palmula ou ferula) era uma espécie de espátula em forma de delgada raqueta, provida de um cabo comprido, e feita de uma madeira branca muito leve coberta de pele, serim ou veludo. O flagício compunha-se de uma bexiga de porco, de carneiro ou de cordeiro, bem cheia de ar, e presa, um pouco afastada, a um cabo, de maneira a poder-se manejá-la facilmente. A palheta empregava-se para dar pequenas pancadas repetidas nos músculos do tronco e dos membros em que se quisesse chamar o afluxo do sangue, a fim de reproduzir-se nessas partes assim flageladas uma intumescência favorável ao seu desenvolvimento. Quanto ao flagício, era especialmente destinado aos órgãos flexíveis, tais como o ventre, os hipocôndrios e o estômago, e batia-se com fortes pancadas para arrancar ao seu entorpecimento e da inação os vasos absorventes, e deste modo dar de novo ação às vísceras adormecidas ou imersas na água. A ferulação (é o nome que tinha este modo de tratamento) foi vivamente recomendada por Galeno, contra a hipocondria e a hidropsia. Observai um indivíduo afetado de hiponcondria, diz o S r. Dallay: parece que os seus flancos estão distendidos, tumefatos, edemaciados, e nesta idéia, que nem sempre é quimérica, ele os comprime com as mãos apertadas, e só percutindo é que os alivia e provoca erutações ruidosas, e algumas vezes essas dejeções biliosas que são seguidas de uma calma tão agradável! Eis o que é preciso imitar, e as percussões agirão ainda melhor que as mãos do doente. Plínio fala igualmente da ferulação em seus escritos, e compara maliciosamente os médicos aos mestre-escolas, porque serviam-se da ferula como eles. Em Roma, existiam certos estabelecimentos em que as damas romanas iam secretamente procurar a rotundidade de formas e o viço que lhes faltavam, submetendose aos golpes da palheta, que precisavam sofrer a fim de corrigir certos defeitos de plástica. Os homens estragados também iam a esses estabelecimentos na esperança de recuperar, pelo tratamento da ferulação, as faculdades que houvessem perdido nos excessos.
Em suma, a extenuação dos membros pela ferula (membra extenuata ferulis
percutienda) tinha outrora grande voga. Esta operação, restituindo aos músculos o seu
desenvolvimento normal e dando ao mesmo tempo aos ventres desnecessariamente
flácidos a tonicidade que lhes falta, satisfaz perfeitamente o desideratum tantas vezes
expresso de engordar os magros sem torná-los balofos, e de emagrecer os gordos sem
edemaciá-los. A percussão se executa com a face palmar da mão ou somente com a ponta dos dedos juntos, como se tamborilasse. Se bem que nesta operação se tenha algumas vezes empregado um instrumento como a palheta, a palmilha ou bexiga cheia de ar, não há instrumento mais inteligente do que a mão e os dedos para fazer irradiar com precisão as vibrações e os deslocamentos moleculares nas diferentes partes do organismo, para as quais a ação magnética, por meio das imposições e dos passes, começou a fazer convergir as correntes. Eis aqui alguns exemplos desses admiráveis fenômenos de ginástica orgânica espontânea, tomados da clínica do Sr. Huguet de Vars e da minha:
123. Os numerosos exemplos que precedem, e que poderíamos multiplicar indefinidamente, demonstram com evidência que, às vezes, o organismo provoca espontaneamente os movimentos e as atitudes próprias a secundarem o esforço vital das correntes desenvolvidas pela ação magnética. Cumpre, portanto, não somente favorecer de todas as maneiras o desenvolvimento desses fenômenos quando eles se apresentam, como ainda procurar em certas circunstâncias (imitando neste ponto as obras da natureza), dar ao corpo do doente as atitudes mais convenientes para abreviar a cura.
Estas atitudes e estes movimentos exercem artificialmente uma influência sobre os
órgãos e sobre as funções que, por seu turno, imprimem aos tecidos modificações
sensíveis. Ora, como a última palavra de toda a modificação a imprimir ao organismo,
por um agente terapêutico qualquer, é uma evolução vital, a arte de curar reside
principalmente na arte de secundar os movimentos vitais ou organo-biológicos, mais
apropriados à resolução das desordens da economia. É o que, já em 1848, previa o Dr. Bonnet, professor de clínica cirúrgica em Lyon, preconizando, como o primeiro passo a
dar no caminho da terapêutica, o tratamento das enfermidades pelo exercício das
funções. Claude Bernard, o célebre fisiologista, em suas investigações experimentais acerca do grande simpático, mostra pelo fato seguinte, as metamorfoses que podem sofrer os tecidos vivos sob a influência especial do sistema nervoso.
Experiência: O paciente, estando colocado numa atitude tal que toda a região abdominal fique em grande tensão, achando-se, por exemplo, a parte superior do corpo deitada um pouco para trás, com os braços levantados e bem estendidos, o operador se coloca diante dele, leva um dedo à cicatriz umbilical, formando os outros dedos um ponto de apoio, e por uma leve pressão vibratória perpendicular ao plano do corpo e continuada durante dez ou quinze segundos, comunica, aos gânglios do grande simpático, as vibrações do dedo. Depois de um tempo de repouso igual ao da ação, ele repete três vezes o mesmo movimento.125. Os processos artificiais mais apropriados para favorecerem ao organismo humano a migração terapêutica das forças são as atitudes e os movimentos. 126. As atitudes variam conforme cada caso particular: só a prática e a experiência podem guiar o operador na escolha da atitude que convém melhor ao paciente; ele o faz conservar sentado, deitado ou de pé, fá-lo levantar, estender ou encolher os membros, inclinar o busto para a direita ou a esquerda, etc. Os braços, fortemente levantados para o ar por cima da cabeça, sustam o corrimento do sangue nas hemorragias nasais e vaforecem a emissão das urinas nas retenções.
Durante a marcha de um destacamento de tropas, no mês de Julho, vinte e oito
epistaxes, dentre elas algumas muito abundantes, sobrevieram sob a influência de uma
insolação prolongada. Sem tirar nenhuma peça do uniforme do soldado e sem
interromper a sua marcha, levantavam-se-lhe bruscamente os braços, fazendo-se-lhe
conservar erguida a cabeça, direito o corpo, juntas as mãos por cima do boné,
recomendando-se-lhe que só respirasse pela boca. Se o sangue não corresse senão por uma narina, bastava levantar o braço correspondente, sustentando o outro a espingarda:
a hemorragia cessava com uma rapidez admirável. (Gazette hebdomadaire de médecine
et de chirurgie de Paris, 1885)
Os físicos chineses explicavam deste modo os resultados que se podiam tirar das posições e das atitudes do corpo: A posição horizontal diminui o obstáculo da gravidade e por conseqüência, é mais favorável à circulação. A de estar em pé, deixando à ação da gravidade toda a sua resistência, é menos favorável à circulação. Pela mesma razão, conforme conservam-se os braços, os pés e a cabeça levantados, inclinados ou encurvados, modifica-se de uma certa maneira a circulação. O que retarda a circulação em um ponto dá-lhe mais força em outros. Quanto mais embaraçada está a circulação num lugar, tanto mais aumenta a sua impetuosidade quando desaparece o obstáculo.
Segue-se daí que as diversas atitudes do Cong-Fou, sendo bem dirigidas, devem
operar um desprendimento salutar em todas as moléstias que provém de uma circulação
embaraçada, retardada ou mesmo interrompida. (Dally)
Os movimentos passivos podem variar de mil maneiras, conforme os casos
especiais que se apresentam: pode-se empregar a ação isolada ou as ações
combinadas da pressão, do choque, da vibração, da oscilação, da abdução, da adução,
da flexão, da extensão, da rotação, da torção ou do atrito. Tão somente o operador deve dirigir todos os seus cuidados à regularização da intensidade da impulsão que comunica ao paciente, a fim de evitar-lhe qualquer excesso nocivo de fadiga. Cumpre excluir dessas manipulações artificiais qualquer rudeza, ou violência, as quais teriam um duplo resultado pernicioso, o de embaraçar a ação das correntes e o de fazer perder ao próprio operador, por um emprego exagerado das forças musculares, uma parte notável de seu poder radiante.
Em todos os seus atos, o operador deve compenetrar-se deste princípio: nenhuma
ação estranha se pode substituir à do organismo, e a máquina humana, em uma série ininterrupta de ações e de reações fisiológicas, químicas, físicas e mecânicas,
coordenadas na unidade do seu ser e de sua existência, secreta por si mesma os seus
líquidos, renova incessantemente as suas partículas elementares, os seus tecidos, as
suas formas, os seus aparelhos; ela própria elimina o que é nocivo ao jogo regular e
normal de suas funções, conserva-se a si própria e por si mesma repara com os seus
movimentos as desordens que acaso existam em uma de suas partes ou de
todas.(Dally) Os massagistas profissionais se conformam raramente com as sábias e producentes prescrições de que acabamos de falar, suas pressões se exercem invariavelmente da periferia para o centro, com a idéia de que é na direção das veias e dos vasos linfáticos que devem ser dirigidos os derrames para que possam ser reabsorvidos. Chamam a isso "fazer uma limpeza na direção do esgoto coletor." A mão deles, substituindo mecanicamente o fluxo vital, que efetivamente domina todo o movimento circulatório, intervém na maioria das vezes com uma violência antes perturbadora que benéfica. Entre os raros práticos que compreendem a sua arte debaixo do ponto de vista verdadeiramente fisiológico, há sobretudo um a quem pessoalmente tive ocasião de apreciar, como seguindo, na minha opinião, as melhores tradições. É o Sr. Armando Voisel, muito conhecido em Paris, o qual, numa interessante comunicação feita ao Congresso Internacional de Magnetismo, em 1889, dizia, a propósito da massagem: "Há duas ações distintas na massagem, uma física e outra vital. Não é, como se acredita, na força desenvolvida que reside o agente curador principal: é no efeito dinâmico." 132. Nos velhos, por uma ação combinada do magnetismo e dos movimentos passivos, consegue-se ativar suficientemente os fenômenos de combustão lenta, de renovação molecular e de eliminação excrementícia, de modo a retardar a incrustação mineral dos ossos, das membranas e dos tecidos, e desta maneira se favorece sua longevidade; mas, onde as atitudes e os movimentos, congraçados com arte, prudência e constância na ação magnética, podem produzir maravilhosos efeitos, é no organismo dos meninos em período de crescimento. Se, em vez de tratar dos desvios de crescimento por meio de aparelhos de extensão forçada, parafusos de compressão, sapatos ortopédicos e espartilhos metálicos, se fizesse apelo às forças vitais e à tendência natural do organismo para a saúde, evitar-se-iam certamente muitas deformidades, que sem isso se tornam incuráveis para sempre. A ortopedia, tal como está hoje compreendida, é uma verdadeira aberração do espírito humano, porque, por sua ação antifisiológica e seus aparelhos de compressão forçada, ela coloca os órgãos em condições tais, que, em lugar de convergirem para ali o movimento e a vida que lhes é indispensável, imobiliza-os, produz novas retrações musculares, aumenta as que existiam, e, pela persistência de um mesmo ponto de apoio, enfraquece e deteriora em vez de fortificar e curar.
Em organo-mecanismo, pelo contrário, a mão do operador escolhe, na produção do
movimento, os seus pontos de apoio por toda a parte em que são necessários, e sempre
momentaneamente, de sorte que não há um ponto do organismo, quer no interior, quer
no exterior, que se não possa deste modo, em virtude das leis da natureza, chamar às
condições de força e de harmonia. (Dally) Por uma ação combinada sobre a enervação geral, consegue-se muitas vezes chamar à vida e ao movimento os músculos afetados de paralisia.
Por ações especiais sobre a região abdominal, consegue-se também combater com
êxito certos estados cloróticos, devidos a uma inação muito grande ou à compressão do
ventre quer pelo espartilho, quer por uma atitude habitualmente encurvada sobre o
abdome: enfim, curam-se desse modo a constipação do ventre, hipocondria, hérnias, e
particularmente todas as afecções devidas a perturbações intestinais ou a alterações do
sistema da veia-porta. ________________________ |
