Em outro lugar e de outra forma, falei especialmente ao coração, usando linguagem simples, adaptada aos humildes e aos justos que sabem chorar e crer.
Aqui falo à inteligência, à razão cética, à ciência sem fé,
a fim de vencê-la, superando-a com suas próprias armas. A palavra doce
que atrai e arrasta, porque comove, foi dita. Indico-vos agora a mesma
meta, mas por outros caminhos, feitos de ousadias e potência de
pensamento, pois quem pede isso não saberia ver de outra forma, por
faltar-lhe a fé ou incapacidade de orientação para compreender.
Que vos deu o último século? Máquinas como jamais o mundo as teve (mas que, no entanto, são apenas máquinas) e, em compensação, ressecou vossa alma. Essa ciência passou como um furacão destruidor de toda a fé e vos impõe, com a máscara do ceticismo, um rosto sem alma. Sorris despreocupados, mas vosso espírito morre de tédio e ouvem-se gritos dilacerantes. Até vossa própria ciência é uma espécie de desespero metódico, fatal, sem mais esperanças. Terá ela resolvido o problema da dor? Que uso sabe fazer dos poderosos meios que lhe deram os segredos arrancados da natureza? Em vossas mãos, o saber e a força transformam-se sempre em meios de destruição. Para que serve, então, o saber, se ao invés de impulsionar-vos para o Alto, tornando-vos melhores, para vós se torna instrumento de perdição? Não riais, ó céticos, que julgais ter resolvido tudo, porque sufocastes o grito de vossa alma que anseia por subir! A dor vos persegue e vos encontrará em qualquer lugar. Sois crianças que julgais evitar o perigo escondendo a cabeça e fechando os olhos, mas existe uma Lei, invisível para vós, todavia mais forte que a rocha, mais poderosa que o furacão, que caminha inexorável movimentando tudo, animando tudo; essa Lei é Deus. Ela está dentro de vós, vossa vida é uma exteriorização dela e derramará sobre vós alegria ou dor, de acordo com a justiça, como o merecerdes.
Para que me possa fazer compreender, é mister que fale de acordo com vossa mentalidade e me coloque no momento psicológico que vosso século está vivendo. É indispensável que eu parta justamente dos postulados da vossa ciência, para dar-lhe uma direção totalmente nova. Vosso sistema de pesquisa objetiva, à base da observação e experiência, não vos pode levar além de certos resultados. Cada meio pode fornecer certo rendimento e nada mais, e a razão é um meio. A análise não poderia chegar à grande síntese, grande aspiração que ferve no fundo de todas as almas, senão por meio de um tempo infinito, de que não dispondes.
Vossa ciência arrisca-se a não concluir jamais e o
“ignorabimus” quer dizer falência. A tarefa da ciência não pode ser
apenas a de multiplicar vossas
comodidades. Não
estranguleis, não sufoqueis a luz de vosso espírito, única alegria e
centelha da vida, até o ponto de tornar a ciência, que nasce do vosso
intelecto, uma fábrica de
comodidades. Esta é prostituição do espírito, é vergonhosa venda
de vós mesmos à matéria.
Ensinar-vos-ei a vencer a morte, a superar a dor, a viver na grandiosidade imensa de vossa vida eterna . Não
acorrereis com entusiasmo ao esforço necessário para obter tão grandes
resultados? Primeiro
compreendei-me com o intelecto e quando este ficar iluminado e virdes
claramente a nova estrada que vos traço, palpitará também vosso coração
e nele se acenderá a chama da paixão, para que a luz se transmude em
vida e o conceito em ação. O
momento é crítico, mas é mister avançar. E então (coisa incrível
para a construção psicológica que o último século imprimiu em vós)
nova verdade vos é comunicada por meios que desconheceis, para que
possais descobrir o novo caminho. O Alto, que vos é invisível, nunca
deixou de intervir nos momentos culminantes da História. Que sabeis do
amanhã, que sabeis da razão por que vos falo? Que podeis imaginar
daquilo que o tempo vos prepara, vós, que estais imersos no átimo
fugidio? Indispensável avançar, mais que isso não vos seria possível.
As vias da arte, da literatura, da ciência, da vida social estão
fechadas, sem amanhã. Não tendes mais o alimento do espírito e
remastigais coisas velhas que já são produtos de refugo e devem ser
expelidos da vida. Falarei do espírito e vos reabrirei aquela estrada
para o infinito, que a razão e a ciência vos fecharam. Aqui entram em função elementos complementares novos para vós. Algum cientista jamais pensou que, para compreender um fenômeno, fosse indispensável a própria purificação moral? Partindo da negação e da dúvida, a ciência colocou a priori uma barreira intransponível entre o espírito do observador e o fenômeno. O eu que observa permanece sempre intimamente estranho ao fenômeno, atingido apenas pela estrada estreita dos sentidos. Jamais o cientista abriu sua alma, para que o mistério encarasse o próprio mistério e se comunicassem e se compreendessem.
O cientista jamais pensou que é
preciso amar o fenômeno, tornar-se o fenômeno observado, vivê-lo; é indispensável transportar o próprio
Eu, com sua sensibilidade, até o centro do fenômeno, não apenas com uma
comunhão, mas com uma verdadeira transfusão de alma. |
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