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Aqui está um texto ampliando o que já está registrado acima,
com o drama da Anna e a análise da hipótese de paternidade de Joaquim
1. O drama de Anna Ribeiro dos Santos - 1835/1837
O caso de Anna Ribeiro dos Santos é um dos retratos mais crus da vulnerabilidade feminina no Espírito Santo imperial.
Em setembro de 1835, seu marido, Joaquim Caetano Simões, morador em Vila Nova de Benevente (hoje Anchieta), embarcou em sua própria embarcação, carregado com mercadorias para o Rio de Janeiro. No mesmo dia da saída, conforme Anna declara no juramento de inventariante, "tivera huma grande tempestade de vento contrário".
A embarcação nunca chegou a porto algum. Não houve notícia, não houve corpo, não houve naufrágio confirmado. Apenas o silêncio.
Por mais de um ano Anna esperou. Nesse intervalo, viúva de fato mas não de direito, ela passou a ser perseguida pelos credores do marido. Algumas dívidas corriam a juros - inclusive a do Capitão-Mor Manoel de Siqueira e Sá e a do Sr. Barros, de Benevente. A situação a levou a escrever, de próprio punho, em 24 de setembro de 1836, uma carta desesperada ao Juiz de Órfãos da Cidade de Vitória, Capitão Francisco Martins de Castro:
- "Dignicimo Sr. dos orfos mande Sr. faça meu processo, fazer o meu inventário por ter passado hum ano e tantos dias que saio de Benevente para o Rio de Janeiro e logo neste mesmo dia apanhou hum grande tempo e como não haparece até este tempo em parte nenhuma num noticiou fassa certa ser morto e como os credores me persegue pelas dividas, algumas delas estão correndo a juros [...]"
E encerra com uma assinatura que resume sua condição social e psicológica naquele momento: "pois sou Serva e Escrava".
O inventário é aberto em 28/09/1836 na casa do Juiz de Órfãos. Anna jura em 01/10/1836 que Joaquim "era filho de fora (forra) escravisados nesta cidade (Vitória-ES) de onde passara hir rezidir em Villa Nova de Benevente" e que deixava dois filhos órfãos.
Os herdeiros são qualificados: Maria da Penha da Trindade (ou Magdalena), 13 anos, e Manoel dos Santos Simões, 9 anos em 1836. Ou seja, um casal estabelecido em Benevente, com poucos bens de raiz e cuja fortuna era, como era comum, concentrada em escravizados: José, pardo 14 anos; Joaquim, pardo 18 anos; Anna, crioula 28 anos, com as filhas Benedita 5 anos, Francisca 16 meses, e mais Maria mulatinha 8 anos e Claudina 6 anos.
Para não ver esses escravos - que eram também laços afetivos e de trabalho - serem vendidos para pagar juros, Anna faz um requerimento tocante em 09/01/1837: pede que as três menores, Benedita, Francisca e Claudina, sejam "votadas" ao seu pai para pagamento de dívida, e que os demais fiquem com ela, obrigando-se ao pagamento dos credores com fiança.
Quem presta a fiança é o próprio pai dela, Bartholomeo dos Santos Ribeiro, em 09/01/1837, em sua casa em Vitória. Ele também será nomeado tutor dos netos em 04/02/1837, fechando o ciclo: Anna volta para a casa paterna, sem marido, com dois filhos pequenos, e com um espólio que, feitas as contas, é quase nada.
O Monte Mor é de 1:923$040, as dívidas de 1:836$058. Sobra um Monte Partível de apenas 86$982. A meação da viúva é de 43$491 e a de cada órfão, 21$745. A pobreza final é atestada pela própria Anna ao declarar os móveis que ficaram em Benevente: "uma [mesa?] toda quebrada sem ferragens, uma marqueza velha, dez cadeiras velhas, uma caixa velha, um baú velho, uma meza pequena velha e um barril".
É o naufrágio duplo: do marido no mar e da família em terra.
2. A hipótese da filiação ilegítima de Joaquim Caetano Simões
No juramento, Anna usa uma expressão fundamental e de grafia incerta na transcrição: "filho de fora (forra) escravisados nesta cidade". A leitura paleográfica correta mais provável é "filho de fora de forra, escravizados nesta cidade" ou "filho de forra, escravizada nesta cidade" - ou seja, filho natural de uma mulher forra (ex-escravizada alforriada) que havia sido escrava em Vitória.
Isso abre a questão da paternidade:
- A hipótese de que Joaquim Caetano Simões possa ser filho ilegítimo de José Caetano Simões, patriarca de uma das famílias mais importantes de Vitória no final do século XVIII e início do XIX, casado com Rita Maria de Jesus.
Os indícios que sustentam a hipótese são fortes dentro da prática genealógica da época:
- a) Homonímia patronímica: O nome Joaquim Caetano Simões reproduz integralmente o primeiro nome e os dois sobrenomes do suposto pai, José Caetano Simões. Era praxe no Brasil escravocrata que filhos naturais reconhecidos informalmente, ou mesmo não reconhecidos mas de paternidade notória, recebessem o nome do pai. O fato de o filho legítimo e conhecido de José Caetano chamar-se Francisco Caetano Simões - que por sua vez é pai de Domingos, batizado em 1834 na Matriz de Vitória, neto paterno de José Caetano Simões e Rita Maria de Jesus - cria um paralelo perfeito: Francisco e Joaquim, ambos Caetano Simões, ambos ligados a Vitória.
- b) Geografia social: José Caetano Simões era homem abastado de Vitória, proprietário de escravos. Ter um filho com uma escravizada ou forra de sua propriedade e depois alforriá-la (ou alforriar o filho) era extremamente comum. O próprio termo "forra" usado por Anna reforça que a mãe de Joaquim não era mais escrava em 1836, mas havia sido.
- c) Ocupação e ascensão: Joaquim, apesar da origem humilde, torna-se mestre de embarcação e pequeno comerciante em Benevente, com escravos e créditos ativos em Benevente, Piuma, Muqui. Esse pequeno capital inicial para comprar embarcação e escravos frequentemente vinha de um auxílio paterno velado - uma forma de "dote" para filhos naturais.
- d) Ausência no inventário do patriarca: Se José Caetano Simões morreu antes de 1835 (o que parece provável), um filho natural não seria listado como herdeiro, a menos que legitimado em testamento, o que explicaria o silêncio documental.
O que falta para comprovar:
- Para transformar a hipótese em prova, seria necessário cruzar três fontes que ainda não constam na página:
- Batismo de Joaquim Caetano Simões: Procurar nos livros de batismo de escravos e forros da Matriz de Vitória (1790-1810). Se ele foi batizado como filho natural de [Nome da mãe] forra, com pai incógnito, mas tendo como padrinho Francisco Caetano Simões ou o próprio José Caetano, é quase prova. Mas, infelizmente estes livros desapareceram.
- Testamento de José Caetano Simões e de Rita Maria de Jesus: Muitos senhores deixavam legados a "meu filho natural" ou alforriavam a mãe na verba testamentária. Outra situação impossível, neste ano de 2026 um incêncio destruiu toda a documentação desta época nos arquivos do tribunal de Justiça. O que conseguimos para este trabalho há algunas anos, já foi uma coisa extraordinária e excepcional.
- Inventário de José Caetano Simões: Verificar se há menção a uma escrava/forra alforriada com filho de nome Joaquim. Conforme dito acima, caso impossível também.
Essa formulação preserva a história de Anna - que já é um documento histórico por si só - sem afirmar como certo o que ainda é hipótese, mas também sem esconder o que a onomástica [1] e o contexto social de Vitória sugerem com tanta força.
--- [1] A onomástica é o estudo dos nomes próprios de todos os gêneros, das suas origens e dos processos de denominação no âmbito de uma ou mais línguas ou dialectos.




[Batismo: NovaAlmeida B01-03.1844-01.1856 - página: 68]
[Batismo: NovaAlmeida B03-04.1877-01.1885 - página: 149]
Registro de batismo na Catedral de Vitória - ES


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