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Caso relatado por André Luiz, onde uma doente, uma jovem grávida, apesar dos apelos da sua genitora desencarnada, pratica o aborto:
... A genitora da enferma adiantou-se e informou-nos: A situação é muito grave! ajudem-na, por piedade! Minha presença aqui se limita a impedir o acesso de elementos perturbadores que prosseguem, implacáveis, em ronda sinistra. O Assistente inclinou-se para a doente, calmo e atencioso, e recomendou-me cooperar no exame particular do quadro fisiológico. A paisagem orgânica era das mais comoventes. A compaixão fraterna dispensar-nos-á da triste narrativa referente ao embrião prestes a ser expulso. Circunscrito à tese de medicação a mentes alucinadas, cabe-nos apenas dizer que a situação da jovem era impressionante e deplorável.
O quadro era horrível de ver-se. Buscando sintonizar-me com a enferma, ouvia-lhe as afirmativas cruéis, no campo do pensamento: — Odeio!.., odeio este filho intruso que não pedi à vida!... Expulsá-lo-ei!.., expulsá-lo-ei!... A mente do filhinho, em processo de reencarnação, como se fora violentada num sono brando, suplicava, chorosa:Poupa-me! poupa-me! quero acordar no trabalho! quero viver e reajustar o destino.., ajuda-me! resgatarei minha dívida!.., pagar-te-ei com amor..., não me expulses! tem caridade!... — Nunca! nunca! amaldiçoado sejas! — dizia a desventurada, mentalmente —; prefiro morrer a receber-te nos braços! Envenenas-me a vida, perturbas-me a estrada! detesto-te! morrerás!... E os raios trevosos continuavam descendo, a jacto contínuo ... ... Nunca supus que a mente desequilibrada pudesse infligir tamanho mal ao próprio patrimônio. A desordem do cosmo fisiológico acentuou-se, instante a instante. Penosamente surpreendido, prossegui no exame da situação, verificando com espanto que o embrião reagia ao ser violentado, como que aderindo, desesperadamente, às paredes placentárias. A mente do filhinho imaturo começou a despertar à medida que aumentava o esforço de extração. Os raios escuros não partiam agora só do encéfalo materno; eram igualmente emitidos pela organização embrionária, estabelecendo maior desarmonia. Depois de longo e laborioso trabalho, o entezinho foi retirado afinal... Assombrado, reparei, todavia, que a ginecologista improvisada subtraia ao vaso feminino somente pequena porção de carne inânime, porque a entidade reencarnante, como se a mantivessem atraída ao corpo materno forças vigorosas e indefiníveis, oferecia condições especialíssimas, adesa ao campo celular que a expulsava. Semidesperta, num pesadelo de sofrimento, refletia extremo desespero; lamentava-se com gritos aflitivos; expedia vibrações mortíferas; balbuciava frases desconexas. Não estaríamos, ali, perante duas feras terrivelmente algemadas uma à outra? O filhinho que não chegara a nascer transformara-se em perigoso verdugo do psiquismo materno. Premindocom impulsos involuntários o ninho de vasos do útero, precisamente na região onde se efetua a permuta dos sangues materno e fetal, provocou ele o processo hemorrágico, violento e abundante. Observei mais. Deslocado indebitamente e mantido ali por forças incoercíveis, o organismo perispirítico da entidade, que não chegara a renascer, alcançou em movimentos espontâneos a zona do coração. Envolvendo os nódulos da aurícula direita, perturbou as vias do estimulo, determinando choques tremendos no sistema nervoso central. Tal situação agravou o fluxo hemorrágico, que assumiu intensidade imprevista, compelindo a enfermeira a pedir socorros imediatos, depois de delir, como pôde, os vestígios de sua falta. Odeio-o! odeio-o! — clamava a mente materna em delírio, sentindo ainda a presença do filho na intimidade orgânica.
— Nunca embalarei um
intruso que me lançaria à vergonha!
Ambos, mãe e filho, pareciam agora, por dizer mais exatamente,
sintonizados na onda de ódio,
porque a mente dele, exibindo estranha forma de apresentação aos meus olhos, respondia, no auge da ira: ...Consumou-se para ambos doloroso processo de obsessão recíproca, de amargas conseqüências no espaço e no tempo, e cuja extensão nenhum de nós pode prever.
... Ama pobre criatura, por duas vezes
sucessivas, provocou o aborto inconsciente pelo excesso de leviandades e,
atualmente, será vitima das próprias irreflexões pela terceira vez, segundo
parece. Debalde temos oferecido o socorro de que podemos dispor.
A infeliz
deixou-se empolgar pela ideia de gozar a vida e irmanou-se a entidades
desencarnadas da pior espécie, que, para acentuar seus planos sombrios,
separaram-na do próprio companheiro, ansiosas por lhe precipitarem o coração
na esfera das emoções baixas. [16a - página 231] |
